LIVRO PUBLICADO
LIVRO: Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir.: Uma Espécie Estratégica para o Desenvolvimento Sustentável da Caatinga
OPEN ACCESS PEER-REVIEWED BOOK
Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir.: Uma Espécie Estratégica para o Desenvolvimento Sustentável da Caatinga
ⓒ 2025 Editora Science / Brazil Science Publisher
SUMÁRIO
CAPÍTULO 1 Pág.1
POTENCIAL DA MIMOSA TENUIFLORA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO SEMIÁRIDO
POTENTIAL OF MIMOSA TENUIFLORA FOR THE SUSTAINABLE DEVELOPMENT OF THE SEMIARID REGION
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.01
Kayo Lucas Batista de Paiva
Paula Evanyn Pessoa do Nascimento
Denys Santos de Souza
Laizy Nascimento dos Santos
Wilkally Críslian Laynne de Moura
Kedma Carla Santana do Nascimento
Elaine Cristina Alves da Silva
Tatiane Kelly Barbosa de Azevêdo
CAPÍTULO 2 Pág.19
CRESCIMENTO E PRODUTIVIDADE DA MIMOSA TENUIFLORA (WILLD.) POIRET (JUREMA-PRETA) EM PLANTIO HOMOGÊNEO COM DIFERENTES ESPAÇAMENTOS
GROWTH AND PRODUCTIVITY OF MIMOSA TENUIFLORA (WILLD.) POIRET (JUREMA-PRETA) IN HOMOGENEOUS PLANTING UNDER DIFFERENT SPACINGS
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.02
Juliana Lorensi do Canto
Arthur Antunes de Melo Rodrigues
José Augusto da Silva Santana
CAPÍTULO 3 Pág.30
RESPOSTAS DE MIMOSA TENUIFLORA AO ESTRESSE HÍDRICO E SALINO: PESQUISAS E EVIDÊNCIAS DE TOLERÂNCIA AO SEMIÁRIDO
RESPONSES OF MIMOSA TENUIFLORA TO WATER AND SALT STRESS: RESEARCH AND EVIDENCE OF TOLERANCE IN SEMIARID CONDITIONS
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.03
Elaine Cristina Alves da Silva
Atila Bruno de Moraes Almeida
Cleuma Christir da Silva Almeida
Jacqueline Wanessa de Lima Pereira
Athirson Virginio Nogueira
Laizy Nascimento dos Santos
Hevelly Ézia Camilo da Silva
Maria José de Holanda Leite
Irlan Paulo Ferreira Campelo
Tatiane Kelly Barbosa de Azevêdo
CAPÍTULO 4 Pág.46
A IDADE DA MIMOSA TENUIFLORA INFLUENCIA NA CONCENTRAÇÃO DE TANINOS CONDENSADOS?
DOES THE AGE OF MIMOSA TENUIFLORA INFLUENCE THE CONCENTRATION OF CONDENSED TANNINS?
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.04
João Paulo Silva Gomes
Tatiane Kelly Barbosa de Azevêdo
Bruna Rafaella Ferreira da Silva
João Gilberto Meza Ucella Filho
Cássia Regina de Almeida Moraes
Denys Santos de Souza
Kayo Lucas Batista de Paiva
Paula Evanyn Pessoa do Nascimento
Juliana Lorensi do Canto
Elaine Cristina Alves da Silva
CAPÍTULO 5 Pág.57
PROPRIEDADES BIOATIVAS DA MIMOSA TENUIFLORA (WILLD.) POIR.: AVANÇOS E OPORTUNIDADES NÃO EXPLORADAS
BIOACTIVE PROPERTIES OF MIMOSA TENUIFLORA (WILLD.) POIR.: ADVANCES AND UNEXPLORED OPPORTUNITIES
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.05
João Victor da Costa Santos
Camila Juliana Sampaio Pereira
Camila da Silva Bounjour
Gabriel Matos Diniz
Luís Henrique Cabral Barral
Kézia Ellen Souza Bonfim
Maria Eduarda Grigolate Campos
Taís Aparecida das Neves Custódio
Ariane Mateus de Souza
Tatiane Kelly Barbosa de Azevêdo
João Gilberto Meza Ucella Filho
CAPÍTULO 6 Pág.84
POTENCIAL DO EXTRATO PIROLENHOSO DE MIMOSA TENUIFLORA COMO ANTISSÉPTICO PARA APLICAÇÕES NA ÁREA VETERINÁRIA
POTENTIAL OF THE PYROLIGNEOUS EXTRACT OF MIMOSA TENUIFLORA AS AN ANTISEPTIC FOR VETERINARY APPLICATION
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.06
Francisco Marlon Carneiro Feijó
Mara Gabriela Rubens
Isadora Karoline de Melo
Grazielly Dantas da Costa
Emanuel Bezerra Soares
Nilza Dutra Alves
Alexandra Fernandes Pereira
Caio Sergio Santos
Luis Eduardo de Oliveira Magalhães
Alexandre Santos Pimenta
CAPÍTULO 7 Pág.100
DURABILIDADE NATURAL DA MADEIRA DE MIMOSA TENUIFLORA (WILLD.) POIR
NATURAL DURABILITY OF MIMOSA TENUIFLORA (WILLD.) POIR. WOOD
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.07
Rodolpho Stephan Santos Braga
Glaucileide Ferreira
Nédia Pereira Correia Mendes Correia
Juarez Benigno Paes
SOBRE OS ORGANIZADORES DO LIVRO DADOS CNPQ: Pág.114
PREFÁCIO À 1ª EDIÇÃO
Este livro é resultado de uma coletânea de estudos realizados por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, vinculados ao curso de Graduação de Engenharia Florestal e ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Florestais, em colaboração com pesquisadores vinculados a Universidade Federal de Viçosa, Universidade Federal da Paraíba, Universidade Federal Rural do Semi-Árido, Instituto Federal do Rio Grande do Norte, Universidade Federal Rural de Pernambuco e da Coordenação Regional de Pesquisa e Inovação em Rondônia.
Visto que a Mimosa tenuiflora (jurema-preta) é uma espécie endêmica da Caatinga e importante para o desenvolvimento sustentável do semiárido brasileiro, o objetivo desta obra é reunir e divulgar conhecimentos científicos sobre diferentes aspectos da espécie, promovendo uma compreensão abrangente de seu potencial silvicultural, químico, ecológico, bioativo e tecnológico.
Os capítulos abordam desde a caracterização, produtividade e o crescimento da espécie em diferentes condições de cultivo até a composição de taninos, propriedades bioativas, tolerância a estresses abióticos e aplicações industriais e veterinárias de seus extratos.
Acreditamos que este livro será uma valiosa contribuição para estudantes, pesquisadores, profissionais e tomadores de decisão que atuam nas áreas de ciências agrárias, florestais, ambientais e farmacológicas, especialmente aqueles comprometidos com a valorização dos recursos nativos do semiárido brasileiro.
Boa Leitura
Os Organizadores
HOW CITE THIS BOOK:
NLM Citation
Silva ECA, Azevêdo TKB, Pimenta AS, Canto JL, Ucella Filho JGM, editores. Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir.: Uma Espécie Estratégica para o Desenvolvimento Sustentável da Caatinga. 1st ed. Campina Grande (PB): Editora Science; 2025.
APA Citation
Silva, E.C.A.; Azevêdo, T.K.B.; Pimenta, A.S.; Canto, J.L. & Ucella Filho, J.G.M. (Eds.). (2025). Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir.: Uma Espécie Estratégica para o Desenvolvimento Sustentável da Caatinga. (1st ed.). Editora Science.
ABNT Brazilian Citation NBR 6023:2018
SILVA, E.C.A.; AZEVÊDO, T.K.B.; PIMENTA, A.S.; CANTO, J.L. & UCELLA FILHO, J.G.M. Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir.: Uma Espécie Estratégica para o Desenvolvimento Sustentável da Caatinga. 1. ed. Campina Grande: Editora Science, 2025.
WHERE ACCESS THIS BOOK:
SOBRE OS ORGANIZADORES DO LIVRO DADOS CNPQ:
Elaine Cristina Alves da Silva
http://lattes.cnpq.br/8936158686745981
Estudante de doutorado em Ciências Florestais na Universidade Federal Rural de Pernambuco, doutora em Biotecnologia da Rede Nordeste de Biotecnologia (RENORBIO), mestre em Ciências Florestais e Engenheira Florestal pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Atua em pesquisas relacionadas à sementes florestais e fisiologia de plantas submetidas a estresses abióticos. Possui experiência em extensão, educação ambiental, levantamento florístico, sementes florestais, e fisiologia vegetal. Foi professora substituta na Universidade Federal Rural de Pernambuco, Unidade de Garanhuns (Sementes Florestais, Silvicultura, Fisiologia vegetal e Nutrição Mineral) e na Universidade Federal Rural do Semi-árido (Planejamento Florestal, Economia Florestal e Política e Legislação Florestal).
Tatiane Kelly Barbosa de Azevêdo
http://lattes.cnpq.br/3960259666564003
Graduada em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Campina Grande, mestre em Ciências Florestais e em Sistemas Agrossilvipastoris, doutora em Ciências Florestais pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Pós-doutorado em andamento (2024-2025) pela Universidade do Trás-os-Montes e Alto Douro, pelo Food and Wine Chemistry Laboratory em Vila Real, Portugal. Foi analista ambiental na Secretaria de Meio Ambiente do Estado de Pernambuco, e pela Secretaria de Meio Ambiente e Gestão Urbana de Jaboatão dos Guararapes, atuando em pareceres de licenciamento ambiental e diagnósticos de espécies arbóreas do município. Atualmente, professora e pesquisadora atuando no curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) desde 2016. Linhas de pesquisa: Produtos Florestais Não Madeireiros e Deterioração e preservação da madeira. Tem experiência na área de Recursos Florestais e Engenharia Florestal, com ênfase em Tecnologia de Produtos Florestais. Atuando principalmente com Taninos Vegetais e suas aplicações. Orientadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Florestais - PPGCFL. Recém ingressante como orientadora na Rede PRODEMA - Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente, Associação Plena em Rede das Instituições, UFPI, UFC, UFERSA, UFRN, UFPB, UFPE, FUFS e UESC.
Alexandre Santos Pimenta
http://lattes.cnpq.br/5285780811057236
Graduado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Viçosa, mestre e doutor em Ciência Florestal pela Universidade Federal de Viçosa. Pós-doutorado pelo Centro de Investigación y Desarollo do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CID/CSIC) em Barcelona, Espanha. Professor e pesquisador do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa de 1994 até 2005. Professor e pesquisador atuando no curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) desde 2009. Linhas de pesquisa: Tecnologia da Madeira e Energia de Biomassa Florestal. Pesquisa e desenvolvimento em produção de carvão vegetal e recuperação de coprodutos da carbonização. PD e assessoria técnica em plantios convencionais e short-rotation cropping de eucalipto para produção de cavacos - substituição de óleos pesado e diesel na geração de energia térmica. PD em alternativas para redução de pegada de carbono em processos térmicos industriais. Atua em rede de colaboração de PDI em síntese de fármacos e produtos para saúde animal tendo base o extrato pirolenhoso de eucalipto combinados ou não com óleos essenciais de ervas aromáticas - antissépticos para o pós-dipping de animais leiteiros, acaricidas (controle de ecto e endoparasitos em animais de consumo e de estimação) e formulações antibióticas promotoras de crescimento (suínos e aves). Orientador do Programa de Pós-graduação em Ciências Florestais - PPGCFL. Coordenador do PPGCFL (de 2012 a 2015 e 2020 - atual). Orientador na Rede PRODEMA - Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente, Associação Plena em Rede das Instituições, UFPI, UFC, UFERSA, UFRN, UFPB, UFPE, FUFS e UESC. Membro do grupo de pesquisa Imunopatologia e Epidemiologia das Arboviroses da do Instituto Oswaldo Cruz - IOC/FIOCRUZ.
Juliana Lorensi do Canto
http://lattes.cnpq.br/3730343975000138
Professora associada do curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Possui graduação em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (2003), mestrado (2006) e doutorado (2009) em Ciência Florestal pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).
João Gilberto Meza Ucella Filho
http://lattes.cnpq.br/8441792944532943
Técnico de nível médio em Agronegócio (2015) e Engenheiro Florestal graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2018). Possui mestrado em Ciência e Tecnologia da Madeira pelo programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia da Madeira da Universidade Federal de Lavras (2021) e Doutorado em Ciências Florestais pelo programa de Pós-graduação em Ciências Florestais da Universidade Federal do Espírito Santo com período sanduíche na Universidad de Córdoba (Espanha), onde atuou como pesquisador no grupo NanoVAL (2023). Atualmente é Professor Adjunto do Curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa - UFV, atuando na área de Tecnologia da Madeira - Controle Ambiental na Indústria Florestal. É coordenador do Laboratório de Resíduo da Industria Florestal (DEF/UFV). Integra o Laboratório de Celulose e Papal (LCP/UFV). É credenciado como orientador e membro da comissão coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Florestal - UFV (Conceito Capes 6) e sua principal linha de pesquisa consiste no aproveitamento de resíduos florestais e da indústria florestal, controle ambiental da indústria florestal e na avaliação do potencial bioativo de produtos provenientes de recursos e resíduos florestais.
CÂMARA BRASILEIRA DO LIVRO
INTERNATIONAL STANDARD BOOK NUMBER (ISBN):
978-65-01-68400-0
CROSSREF DIGITAL OBJECT IDENTIFIER (DOI):
CAPÍTULOS PUBLICADOS
CAPÍTULO 1
POTENCIAL DA MIMOSA TENUIFLORA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO SEMIÁRIDO
POTENTIAL OF MIMOSA TENUIFLORA FOR THE SUSTAINABLE DEVELOPMENT OF THE SEMIARID REGION
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.01
Submetido em: 07/08/2025
Revisado em: 05/09/2025
Publicado em: 12/09/2025
Kayo Lucas Batista de Paiva
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
.
Paula Evanyn Pessoa do Nascimento
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
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Denys Santos de Souza
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
.
Laizy Nascimento dos Santos
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
.
Wilkally Críslian Laynne de Moura
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
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Kedma Carla Santana do Nascimento
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
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Elaine Cristina Alves da Silva
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
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Tatiane Kelly Barbosa de Azevêdo
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
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Resumo
A Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., conhecida popularmente como jurema-preta, é uma espécie da Caatinga de potencial florestal madeireiro e não madeireiro como os taninos. Possui importância ecológica e socioeconômica para o semiárido brasileiro tolerante às condições adversas da região. Esta pesquisa tem como objetivo, o desenvolvimento de um levantamento bibliográfico nas bases de dados sobre a Mimosa tenuiflora, em trabalhos de revisão de literatura, bem como pesquisas empíricas desenvolvidas para reunir informações sobre a potencialidade da espécie para o Semiárido brasileiro. As informações encontradas, com base da pesquisa bibliográfica demonstra que o uso madeireiro da espécie se destaca para o fornecimento de energia, sendo uma das principais fontes de lenha e carvão no Nordeste. Possui propriedades antibacterianas, anti-inflamatórias e cicatrizantes, com aplicações farmacológicas no tratamento de infecções, feridas e inflamações. A casca da jurema-preta possui altos níveis de taninos, com potencial para a indústria de curtimento de peles, adesivos naturais e tratamento de água e efluentes. Contribui para a preservação da biodiversidade, fornecendo recursos florais para polinizadores e promovendo a regeneração do solo. Diante de sua ampla aplicabilidade, a adoção de estratégias sustentáveis para seu manejo é fundamental, garantindo benefícios ambientais e econômicos para as comunidades locais.
Palavras-chave: Jurema-preta. Lenha. Taninos. Conservação. Sustentabilidade.
Abstract
Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., commonly known as jurema-preta, is a Caatinga species with both timber and non-timber forest potential, such as tannins. It holds ecological and socioeconomic importance for the Brazilian semiarid region due to its tolerance to adverse environmental conditions. This study aims to conduct a bibliographic survey in scientific databases on Mimosa tenuiflora, including literature reviews as well as empirical research, to gather information about the species’ potential for the Brazilian semiarid. The findings from the literature review indicate that the species stands out in timber use, particularly for energy production, being one of the main sources of firewood and charcoal in the Northeast. It also has antibacterial, anti-inflammatory, and healing properties, with pharmacological applications in the treatment of infections, wounds, and inflammations. The bark of M. tenuiflora contains high levels of tannins, with potential for use in the leather tanning industry, natural adhesives, and water and effluent treatment. Additionally, the species contributes to biodiversity conservation by providing floral resources for pollinators and promoting soil regeneration. Given its wide range of applications, the adoption of sustainable management strategies is essential to ensure environmental and economic benefits for local communities.
Keywords: Jurema-preta. Firewood. Tannins. Conservation. Sustainability
Introdução
A Caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro, localizado na região Nordeste do Brasil, onde o clima é caracterizado por chuvas escassas e distribuídas de forma irregular ao longo do ano (Moro et al.,2016). Essa região abrange uma extensão de 862.597,39 km², correspondendo cerca de 10% do território brasileiro (IBGE, 2019). É considerada a maior floresta tropical sazonalmente seca com maior diversidade ecológica no mundo (Lessa et al.,2019), abrigando 3.347 espécies de plantas distribuídas em 962 gêneros e 153 famílias, dos quais 526 espécies e 29 gêneros são classificados como endêmicos (Fernandes et al.,2020).
A Caatinga é a região semiárida com a maior densidade populacional do mundo, contando com 27.870.241 habitantes espalhados por 1.262 municípios. Cerca de 28% são trabalhadores rurais que dependem da agricultura de subsistência para seu sustento (SUDENE, 2017). A elevada densidade populacional, somada à predominância de baixa renda, leva uma grande parte da população a utilizar os recursos naturais da região de forma intensiva (Albuquerque et al.,2017). A diversidade de vegetação da Caatinga proporciona uma grande variedade de recursos vegetais, que podem ser aproveitados pela população local para diferentes finalidades.
Dentre as espécies arbóreas utilizadas pela população local, destaca-se a Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., conhecida popularmente como jurema-preta, uma espécie pertencente à família Fabaceae (Lopes et al.,2022). A jurema-preta é tradicionalmente empregada como recurso energético, sendo amplamente utilizada na geração de combustíveis e na fabricação de carvão vegetal (Silva et al.,2024). Além disso, a jurema-preta desempenha um papel fundamental como pioneira na recuperação de florestas nativas, devido à sua elevada resistência a condições ambientais adversas e à sua capacidade de sobreviver por longos períodos de estiagem (Rivera-Arce et al.,2007; Chagas et al.,2020).
A espécie também se destaca por sua ampla utilização na medicina tradicional, conforme registrado em diversos estudos etnofarmacológicos, onde pesquisas etnobotânicas realizadas em diferentes biomas do nordeste do Brasil relatam seu uso popular para diversas aplicações terapêuticas (Silva et al., 2024). Esse uso abrange a aplicação da casca do tronco no alívio de dores, no tratamento de febres, para enfermidades respiratórias e inflamações tanto internas quanto externas, além de ser empregada para alívio de cólicas menstruais.
Tais aplicabilidades fazem com que a espécie seja uma das mais transportada em volume no estado do Rio Grande do Norte (Nogueira et al., 2021). O que evidencia sua importância para os moradores da região. Entretanto, ainda são escassos os trabalhos que relatem a ampla gama de aplicações da espécie e sua notoriedade.
Diante do exposto, o presente trabalho tem como objetivo realizar um levantamento na literatura sobre a Mimosa tenuiflora, destacando sua importância para as populações da Caatinga. Além disso, busca suprir a escassez de informações sobre as potencialidades da espécie, evidenciando seu papel na subsistência local e na recuperação ambiental.
A metodologia utilizada para realizar a busca baseou-se nos termos específicos: Jurema preta, Mimosa tenuiflora, Mimosa tenuiflora e exploração madeireira, Produção de lenha e carvão com espécies nativas, produtos florestais não madeireiros no semiárido, plantas medicinais da Caatinga; Fitoterapia com espécies da Caatinga; extração e caracterização de taninos, potencial industrial de plantas da Caatinga, potencial madeireiro na Caatinga, levando em consideração artigos publicados em periódicos científicos nacionais e internacionais.
As bases de dados utilizadas para o levantamento foram a Web of Science, Google Scholar, e SciELO, selecionando-se os trabalhos de acordo com o tema em questão.
Desenvolvimento
Morfologia e distribuição geográfica da Mimosa tenuiflora
A Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., popularmente chamada de jurema-preta, é uma espécie arbórea pertencente à família Fabaceae (Lopes et al., 2022). É possível encontrar diferentes denominações científicas consideradas partes da sinonímia da espécie, as quais podem ser utilizadas para referir-se a essa planta, incluindo Mimosa cabrera Karsten, Mimosa limana Rizzini, Mimosa maracasensis Harms, Mimosa nigra Huber, Mimosa hostilis (Mart.) Benth., Acacia tenuiflora Willd., Acacia hostilis Mart., Mimosa apodocarpa var. hostilis (Benth.) Hassl (Albuquerque et al.,2018; Lucena e Cruz, 2023).
A Mimosa tenuiflora é uma espécie que pode se desenvolver como árvore, arbusto ou subarbusto, alcançando alturas de 2 a 8 m (Gazzoni, 2021). Seus ramos são escuros, cilíndricos, aculeados e viscosos, apresentando estípulas caducas, triangulares e ciliadas (Lucena e Cruz, 2023). O caule possui revestimento que varia entre glabro e pubescente. As folhas são bipinadas e viscosas, com pontos glandulares na face adaxial dos folíolos, que são cartáceos e oblongos, com ápice arredondado, base oblíqua e margem curta e ciliada (Rodrigues et al., 2020; Sousa et al., 2020). Além disso, possuem glândulas translúcidas na superfície inferior.
A espécie exibe inflorescências axilares do tipo espiga, solitárias e multiflorais, que podem conter cerca de 150 flores (Dourado et al., 2013). Essas flores são pequenas, com 2–2,5 mm de comprimento, tetrâmeras, diplostêmones, sésseis e campanuladas, de coloração esbranquiçada, e não possuem bractéolas (Albuquerque et al., 2018). Os frutos são craspédios estipitados, cartáceos e oblongos, com ápice mucronado e base afilada, medindo entre 2,5 e 4,0 mm de comprimento, e contendo de quatro a oito segmentos (Lucena e Cruz, 2023). As sementes são marrons, achatadas, orbiculares e desprovidas de asas (Dutra et al., 2020).
A espécie é originária do Nordeste brasileiro, sendo encontrada naturalmente em áreas de baixa pluviosidade, como a Caatinga e o Cerrado, sendo registrada na região Nordeste e se expandindo até o Sudeste do País, alcançando o estado de Minas Gerais (Dutra et al., 2020; Bezerra et al., 2021). Ocorre ainda em diversos países, incluindo Honduras, El Salvador, Colômbia, México e Venezuela (Sousa et al., 2021). Não é uma espécie ameaçada de extinção, encontrada em grandes populações nas regiões onde se estabelece.
A espécie se destaca por sua resistência a longos períodos de seca e pela capacidade de rebrotar diversas vezes ao longo do ano (Santos et al., 2022). Seu potencial madeireiro é evidenciado pelo fato de que, no estado do Rio Grande do Norte, a madeira do gênero Mimosa é a nativa mais transportada em volume, amplamente utilizada pela população local (Nogueira et al., 2021).
Potencial madeireiro e energético da Mimosa tenuiflora no nordeste do Brasil
A Mimosa tenuiflora apresenta uma madeira de alta densidade (1,12 g/cm³), textura média, elevada resistência mecânica e grande durabilidade natural, sendo amplamente empregada na fabricação de mourões, estacas, componentes estruturais e móveis rústicos (Carvalho, 2010; Lima et al., 2018; Gazzoni, 2021). Rocha et al. (2015) observaram que a madeira de jurema-preta apresenta boa estabilidade dimensional e resistência equivalente à de outras madeiras comumente utilizadas no Brasil, evidenciando seu potencial de mercado na indústria regional. Além disso, sua classificação em termos de resistência mecânica indica a viabilidade de seu uso na fabricação de móveis domésticos, o que pode agregar valor comercial à espécie e contribuir para a geração de empregos, trazendo benefícios sociais.
Nogueira e Castro (2021) ao avaliarem as variações longitudinais nas propriedades físicas da madeira de Mimosa tenuiflora, observaram que a madeira da espécie apresenta alta estabilidade dimensional e um fator anisotrópico próximo de 1, o que reduz a tendência ao fendilhamento e empenamento durante a secagem. Destacando seu potencial para a produção de itens de maior valor comercial. Nascimento et al. (2013) ao analisarem painéis de partículas homogêneas fabricados com espécies de manejo da região da Caatinga do Brasil, constataram que os painéis produzidos com partículas de madeira de Jurema Preta demonstraram desempenho superior nas propriedades mecânicas avaliadas. Tais como o módulo de elasticidade (MOE) e de ruptura (MOR), a resistência à tração paralela (RT), resistência à tração perpendicular (RTP) e resistência ao arrancamento de parafuso (RAP), superando aqueles fabricados em escala industrial com partículas de Pinus elliottii e Corymbia citriodora.
Apesar de possuir um potencial madeireiro variado, sua exploração no Nordeste do Brasil ocorre predominantemente para a obtenção de lenha (Nogueira e Castro, 2021). Magalhães et al. (2017) conduziram um levantamento em um assentamento no estado de Alagoas e constataram que a espécie se encontrava entre as três mais relevantes, usadas culturalmente como fonte de biocombustível. Oliveira et al. (2006), ainda destacam que a jurema-preta é uma das espécies lenhosas da Caatinga mais adequadas para a produção sustentável de bioenergia na região tropical semiárida do Nordeste do Brasil, devido à qualidade de sua madeira e à sua capacidade de crescimento nas condições ambientais da região.
A conversão da madeira dessa espécie em carvão vegetal apresenta um rendimento gravimétrico de 39,68%, com um teor de carbono fixo de 71,97% e um poder calorífico de 6.866 cal/g, demonstrando um desempenho energético superior ao do Eucalyptus grandis e de outras espécies nativas da Caatinga (Coradin et al., 2018). Tais caraterísticas fazem com que a madeira dessa espécie seja amplamente empregada na indústria ceramista, padarias e churrascarias, além de ser utilizada em residências para o preparo de alimentos, especialmente em áreas rurais contribuindo de forma significativa para a matriz energética do Nordeste do Brasil (Sousa et al., 2021).
A Mimosa tenuiflora apresenta um expressivo potencial madeireiro, sendo amplamente utilizada no Nordeste brasileiro tanto para fins estruturais quanto energéticos. Suas propriedades físicas e mecânicas favorecem a produção de móveis, mourões e painéis, enquanto seu elevado rendimento na conversão em carvão vegetal reforça sua importância na matriz energética regional.
No entanto, sua exploração ainda é predominantemente voltada para a obtenção de lenha, o que ressalta a necessidade de estratégias que promovam um uso mais diversificado e sustentável da espécie, agregando maior valor comercial e fortalecendo a economia local.
- Potencial farmacológico da Mimosa tenuiflora no nordeste do Brasil
As diversas partes da Mimosa tenuiflora, como a casca do caule, ramos e folhas, são amplamente empregadas nas práticas medicinais de diversas populações latino-americanas (Albuquerque et al., 2007; Walter et al., 2020). No contexto mágico-religioso, no Nordeste do Brasil, tanto as comunidades indígenas quanto as afrodescendentes utilizam as raízes e a casca dos ramos dessa planta para preparar a ‘jurema’, uma bebida consumida durante rituais (ALBUQUERQUE et al., 2018). Essa bebida é conhecida por suas propriedades psicoativas, que se devem à presença de N, N-dimetiltriptamina, um alcaloide do grupo das triptaminas (Souza et al., 2008; Gaujac et al., 2013).
A coleta de M. tenuiflora para fins da medicina tradicional inclui a extração de sua casca do caule (Agra et al., 2007; Albuquerque et al., 2007), assim como de suas folhas e flores para a confecção de chás e xaropes (Albergaria et al., 2019; Amariz et al., 2022), utilizados no tratamento de enfermidades parasitárias, inflamações, distúrbios respiratórios, colesterol alto, diabetes e queimaduras (Magalhães et al., 2018; Lucena e Cruz, 2023).
Araújo et al., (2018) investigaram as atividades antibacterianas e antifúngicas do ácido pirolenhoso da madeira de Mimosa tenuiflora e concluíram que cepas de Escherichia coli e Pseudomonas aeruginosa, além de leveduras, Candida albicans e Cryptococcus neoformans foram impedidas de se proliferarem quando expostas a esse componente. Leite et al., (2015) relataram que os extratos etanólicos de M. tenuiflora apresentam atividade antibacteriana contra S. aureus e P. aeruginosa. Os autores ainda concluem que o extrato apresenta baixa toxicidade e uma eficácia superior contra cepas Gram-positivas, também demonstrando boa ação contra a cepa de P. aeruginosa, um microrganismo Gram-negativo de relevância clínica.
Em sua pesquisa, ainda com extrato pirolenhoso de M. tenuiflora, Feijo et al., (2022) constatou a eficiência deste, como antisséptico no tratamento de feridas cirúrgicas em gatos submetidos a ovariosalpingohisterectomia. Foi observada uma redução significativa no crescimento bacteriano nos animais tratados com o extrato de M. tenuiflora, sem evidência de citotoxicidade nas células epiteliais felinas. Ademais, as feridas cirúrgicas dos gatos que receberam o extrato mostraram uma cicatrização aprimorada. Em testes em ágar, tanto o extrato de M. tenuiflora quanto a clorexidina apresentaram zonas de inibição contra todas as cepas bacterianas isoladas das feridas.
Silva et al., (2024) relatam atividade dos extratos aquosos da casca de M. tenuiflora contra Trypanosoma cruzi e Trichomonas vaginalis. De acordo com os resultados, após 72 horas de incubação com uma concentração de 1000 μg/mL, o crescimento das formas epimastigotas de T. cruzi foi completamente inibido. Já para T. vaginalis, a mesma dose do extrato causou cerca de 85% de inibição após 48 horas de exposição. Esses efeitos foram comparáveis aos dos fármacos de referência, nifurtimox para T. cruzi e metronidazol para T. vaginalis.
Bitencourt et al., (2014) investigaram a atividade anti-inflamatória do extrato aquoso de M. tenuiflora na resposta inflamatória provocada pelo veneno do escorpião Tityus serrulatus. Os resultados indicaram que todas as concentrações testadas (20, 30 e 40 mg/kg) reduziram a migração de leucócitos para a cavidade peritoneal e diminuíram os níveis de mediadores pró-inflamatórios, incluindo as interleucinas-6 (IL-6), IL-12 e IL-1β.
Bitencourt (2015) também avaliou a ação anti-inflamatória e antipeçonhenta do extrato de M. tenuiflora em modelos experimentais de inflamação e envenenamento induzido por Bothrops jararaca. A autora constatou que a administração dos extratos, frações e compostos isolados de M. tenuiflora levaram à inibição do processo inflamatório em vários modelos experimentais. O estudo revelou pela primeira vez, o efeito dessa planta na redução da inflamação induzida pela peçonha de Bothrops jararaca.
A capacidade cicatrizante da M. tenuiflora é amplamente reconhecida. Normalmente aplica-se uma emulsão contendo o pó da casca da planta, cuja composição é rica em taninos e biflavonoides (Silva et al., 2024). Essa formulação contribui para a estimulação celular e a recuperação de tecidos lesionados, além de apresentar efeitos anti-inflamatórios e antimicrobianos já documentados na literatura (Abdennabi et al., 2016; Bardaa et al., 2016).
Martinez-Higuera et al., 2021 avaliaram a ação cicatrizante de um hidrogel contendo extrato hidroetanólico de M. tenuiflora e nanopartículas de prata em ratos com lesões térmicas. Após 14 dias de tratamento com 100 μg/g, a contração da ferida atingiu 61%, promovendo uma cicatrização acelerada sem sinais de inflamação, com integridade epidérmica preservada e alta deposição de colágeno. O desempenho foi comparável ao creme CICAFLORA (10% de M. tenuiflora), que apresentou 84% de contração em 11 dias. Além do efeito cicatrizante, suas propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianas auxiliam na recuperação dos tecidos.
A M. tenuiflora demonstra uma ampla gama de atividades farmacológicas, incluindo propriedades antibacterianas, antifúngicas, anti-inflamatórias, cicatrizantes e antissépticas. A planta tem se mostrado eficaz tanto em modelos experimentais quanto em usos tradicionais, com resultados que indicam seu potencial como alternativa terapêutica para o tratamento de infecções e aceleração da cicatrização. O uso de seus extratos, especialmente os derivados de sua casca, mostra-se promissor em diversos tratamentos médicos e como agente adjuvante na medicina tradicional.
Potencial não madeireiro da Mimosa tenuiflora para fins industriais
Os Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNMs) englobam uma ampla variedade de recursos obtidos de espécies vegetais, sem a necessidade da extração da madeira. Esses produtos incluem folhas, cascas, frutos, sementes, resinas, látex, óleos essenciais, extratos vegetais, fibras e outros compostos de interesse industrial, farmacológico e alimentício. Diferente do uso tradicional da madeira, os PFNMs permitem a exploração sustentável dos recursos florestais, promovendo benefícios econômicos e ambientais, sem necessariamente derrubar a árvore, além de fortalecer cadeias produtivas locais (Elias e Santos, 2016).
Dentre os PFNM retirados da M. tenuiflora, se destaca os taninos extraídos da casca do fuste, os quais têm aplicações promissoras em diferentes setores industriais, como curtimento de couro, produção de adesivos e tecnologias ambientais para o tratamento de águas e efluentes.
O potencial terapêutico da M. tenuiflora está associado ao alto teor de taninos (21%) em sua casca, além da presença de flavonoides e outros metabólitos secundários que possuem ação antibacteriana, anti-inflamatória, antifúngica e cicatrizante (Azevedo et al., 2017; Magalhães et al., 2018; Lucena e Cruz, 2023; Silva et al., 2024). Pesquisas indicam que os taninos extraídos de M. tenuiflora apresentam características que possibilitam seu uso em diversos setores industriais.
Lima et al., (2014) constataram que os taninos extraídos da jurema-preta demonstraram maior eficiência nos processos de curtimento e recurtimento de peles de animais. As propriedades físico-mecânicas das peles tratadas com esses taninos foram superiores às obtidas com outras espécies. Os autores ainda destacam que, considerando a eficácia no curtimento, a resistência das peles curtidas e a ampla distribuição da jurema-preta no semiárido brasileiro, essa espécie se destaca como uma alternativa promissora para o curtimento de peles.
A patente Nº BR 102017013991-3 (Santos et al., 2023) refere-se a um biocoagulante produzido a base do extrato tânico de M. tenuiflora para tratamento de águas e efluentes industriais. Souza et al., (2024) relatam que o coagulante derivado dos taninos de M. tenuiflora demonstra eficiência na diminuição da turbidez, especialmente nos estágios iniciais de agitação, sem causar mudanças expressivas no pH da água tratada. Isso contribui para o avanço de tecnologias de tratamento mais sustentáveis e ambientalmente menos impactantes.
Lopes et al., (2021) avaliaram os taninos extraídos da casca de M. tenuiflora e seu uso na produção de adesivos para madeira. Esses adesivos foram utilizados na fixação de juntas de madeira de pinus, e sua resistência ao cisalhamento foi avaliada. Os autores verificaram que os adesivos apresentaram elevada viscosidade e formaram linhas de cola com resistência e deformação ao cisalhamento comparáveis entre si. Destacam ainda que, o adesivo produzido com tanino apresentou um desempenho de colagem equivalente ao de um adesivo comercial utilizado como controle positivo.
Silva et al., (2022) investigaram as propriedades da madeira laminada cruzada (MLC) colada com adesivo à base de taninos da casca de M. tenuiflora. Os autores concluíram que os taninos apresentaram potencial para a colagem de MLC e possivelmente de outros materiais de madeira. No entanto, as características mecânicas dos painéis MLC não atingiram os padrões exigidos pelas normas de qualidade, possivelmente devido à alta viscosidade do adesivo formulado e à densidade elevada da madeira de eucalipto empregada. Dessa forma, são necessários estudos adicionais para otimizar as propriedades da formulação adesiva baseada nesses taninos.
Ao investigarem a qualidade da carcaça e da carne de cordeiros que receberam taninos naturais do feno de M. tenuiflora, Fernandes et al., (2021) relataram que a adição destes à dieta dos cordeiros influenciou positivamente diversos parâmetros de desempenho e qualidade da carne. Observou-se um aumento quadrático (P < 0,05) no consumo de matéria seca (CMS), peso final ao abate (PFA), ganho médio diário (GMD), peso do lombo e do músculo, além da espessura da gordura subcutânea. Também houve melhora na capacidade de retenção de água (CRA), na relação entre os ácidos graxos ∑n–6:∑n–3 e na proporção de ácidos graxos poli-insaturados (AGPI). Além disso, a inclusão dos taninos resultou em um aumento linear (P < 0,05) na deposição de gordura subcutânea e intermuscular, na gordura total e no rendimento de gordura. Também foram observadas melhorias na relação músculo/ gordura no corte da perna, nos níveis de C18:1n–9–trans e na atividade da enzima Δ9-desaturase C18:0.
Os autores ainda concluem que, a substituição do feno de Brachiaria decumbens cv. Basilisk pelo feno de M. tenuiflora na proporção de 250 g/kg da forragem, equivalente a 17,4 g/kg de matéria seca (MS) em taninos, é recomendada para a alimentação de ovinos da raça Santa Inês. Pois, essa substituição melhora o desempenho animal, a capacidade de retenção de água (CRA), a aceitação global e a qualidade lipídica da carne. Além disso, contribui para a redução dos ácidos graxos saturados totais (ΣAGS) e do índice de trombogenicidade (IT), beneficiando a saúde do consumidor ao diminuir o risco de doenças cardiovasculares. Dessa forma, incentivar o uso do feno de M. tenuiflora como forragem na alimentação confinada de cordeiros pode trazer vantagens significativas.
Os taninos extraídos da M. tenuiflora demonstram um grande potencial em diversas aplicações, tanto na área da saúde animal quanto em processos industriais. Na alimentação de ovinos, esses taninos promovem melhorias no desempenho e na qualidade da carne, com benefícios à saúde do consumidor, como a redução de ácidos graxos saturados e o risco de doenças cardiovasculares.
Os taninos de M. tenuiflora se destacam em processos como o curtimento de peles, produção de adesivos para madeira e tratamento de águas e efluentes, evidenciando sua versatilidade e eficácia. Assim, os taninos de M. tenuiflora se mostram uma alternativa promissora e sustentável em diversas áreas industriais e ambientais.
Importância ecológica da Mimosa tenuiflora na recuperação de áreas degradadas e preservação da biodiversidade
A M. tenuiflora é uma espécie pioneira com habilidade de estabelecer grandes populações em áreas com boa luminosidade e em regiões semiáridas, mesmo em condições de escassez de água e sob forte impacto de atividades humanas (Figueirôa et al., 2006; Diesel et al., 2014). Devido ao seu crescimento rápido e à sua capacidade de regeneração, é fundamental na recuperação de áreas degradadas, ajudando a combater a erosão do solo e estabelecendo condições favoráveis para o crescimento e estabelecimento de outras plantas (Mattos et al., 2015; Santos-Silva et al., 2015).
Ao analisarem a sobrevivência e o crescimento de árvores nativas ao longo de dois anos, além dos efeitos do plantio de árvores sobre a cobertura do solo em áreas degradadas da Caatinga, Figueiredo et al., (2012) concluíram que a M. tenuiflora se destacou como a espécie mais promissora. Em média, ela apresentou altura de 2,5 m, diâmetro basal de 41 mm e cobertura de copa de 77%. A vegetação herbácea sob sua copa atingiu um total de 53%. Em áreas vizinhas, onde o pastoreio ocorreu e nenhuma muda foi plantada, não houve regeneração de árvores, e a cobertura de ervas foi de apenas 10%. Os resultados indicaram que, em dois anos, as árvores plantadas conseguiram se desenvolver em áreas degradadas da Caatinga, aumentando a cobertura do solo para 93%.
A M. tenuiflora se destaca não apenas pela sua importância ecológica como espécie pioneira, capaz de recuperar áreas degradadas e combater a erosão, mas também pelo papel essencial que desempenha na manutenção da biodiversidade. As flores da M. tenuiflora são melíferas, fornecendo recursos florais, como pólen e néctar, para diversas espécies de abelhas nativas, vespas, moscas e outros insetos, desempenhando um papel fundamental na preservação e no equilíbrio do ecossistema (Santisteban et al., 2019, Muniz et al., 2020). Segundo Felix (2021) destacou que a M. tenuiflora é uma espécie essencial como fonte de alimento proteico e energético para abelha Jandaíra ao longo do ano no semiárido cearense.
A rápida regeneração, resistência a condições adversas e capacidade de criar um ambiente favorável para o crescimento de outras plantas tornam a M. tenuiflora uma espécie importante em processos de recuperação de áreas degradadas. Além disso, a planta contribui significativamente para o equilíbrio do ecossistema, fornecendo recursos alimentares para uma variedade de insetos polinizadores, como abelhas nativas, o que reforça sua relevância para a preservação da fauna e flora locais, especialmente no semiárido.
Considerações finais
Diante do vasto potencial da M. tenuiflora, é fundamental a adoção de estratégias de manejo sustentável que garantam a exploração da espécie de forma equilibrada, evitando a degradação dos ecossistemas naturais e a promoção do uso diversificado e economicamente viável. A valorização da Mimosa tenuiflora pode contribuir tanto para a conservação ambiental quanto para o fortalecimento das cadeias produtivas regionais, agregando valor comercial e impulsionando a economia local.
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CAPÍTULO 2
CRESCIMENTO E PRODUTIVIDADE DA Mimosa tenuiflora (Willd.) Poiret (JUREMA-PRETA) EM PLANTIO HOMOGÊNEO COM DIFERENTES ESPAÇAMENTOS
GROWTH AND PRODUCTIVITY OF Mimosa tenuiflora (WILLD.) POIRET (JUREMA-PRETA) IN HOMOGENEOUS PLANTING UNDER DIFFERENT SPACINGS
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.02
Submetido em: 07/08/2025
Revisado em: 05/09/2025
Publicado em: 12/09/2025
Juliana Lorensi do Canto
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0000-0003-1551-1543
Arthur Antunes de Melo Rodrigues
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0009-0001-0882-7243
José Augusto da Silva Santana
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0000-0002-4150-8359
Resumo
A Mimosa tenuiflora (Willd.) Poiret apresenta grande importância ecológica e econômica, pela adaptação edafoclimática em regiões semiáridas e pelos seus múltiplos potenciais de uso, sendo proposta como alternativa para o desenvolvimento sustentável do Nordeste brasileiro. Assim, este trabalho objetivou avaliar o crescimento e estimar a produtividade da espécie, aos sete anos de idade, em plantios homogêneos com diferentes espaçamentos, em uma área com solo de baixa fertilidade natural localizada em Macaíba-RN. A coleta de dados compreendeu a mensuração das circunferências na base e na altura do peito, e da altura total das plantas. Foram estimados os volumes de madeira por unidade de área e a taxa de sobrevivência. O volume estimado foi superior (56,43 m3/ha) no menor espaçamento de plantio (2 m x 2 m). Por outro lado, o maior espaçamento entre as plantas (3 m x 3 m) favoreceu a produção de fustes, apesar de ter apresentado menor volume de lenha (49,52 m3/ha). Ainda, o espaçamento mais amplo apresentou DB médio (7,8 cm) superior ao menor espaçamento (5,9 cm). Aos sete anos de idade, a M. tenuiflora apresentou alta taxa de sobrevivência (95,2 e 98,3%, respetivamente para o menor e o maior espaçamento), demonstrando adaptação edafoclimática e elevado potencial silvicultural em plantio homogêneo na região.
Palavras-chave: Silvicultura, Região Nordeste, Lenha, Energia.
Abstract
Mimosa tenuiflora (Willd.) Poiret has great ecological and economic importance due to its edaphoclimatic adaptability in semiarid regions and its multiple potential uses, being proposed as an alternative for sustainable development in the Brazilian Northeast. Therefore, this study aimed to evaluate the growth and estimate the productivity of the species, at seven years of age, in homogeneous plantations under different spacings, in an area with naturally low soil fertility located in Macaíba, RN. Data collection included measurements of basal circumference, diameter at breast height (DBH), and total plant height. Wood volume per unit area and survival rate were estimated. The highest estimated wood volume (56.43 m³/ha) was observed in the densest spacing (2 m × 2 m). On the other hand, the widest spacing (3 m × 3 m) favored the production of usable stems, although it showed a lower wood volume (49.52 m³/ha). Furthermore, the wider spacing resulted in a higher average DBH (7.8 cm) compared to the denser spacing (5.9 cm). At seven years of age, M. tenuiflora showed a high survival rate (95.2% and 98.3%, respectively for the narrower and wider spacings), demonstrating edaphoclimatic adaptation and high silvicultural potential in homogeneous plantations in the region.
Keywords: Silviculture, Northeast Region, Firewood, Energy.
Introdução
A Mimosa tenuiflora (Willd.) Poiret, popularmente conhecida como jurema-preta, é uma espécie da família Fabaceae presente em quase todo o Nordeste brasileiro (Chagas, Luzas e Vieira, 2020), com grande importância econômica, pelos seus múltiplos potenciais de uso. Se destaca ainda pela adaptação edafoclimática em regiões semiáridas, sendo proposta como alternativa para o desenvolvimento regional sustentável.
Por ser uma espécie pioneira com sistema radicular profundo, apresenta grande rusticidade e se desenvolve em solos pobres e degradados e com consideráveis níveis de compactação (Azevedo et al., 2012; Bendito et al., 2018). Inclusive, estabelecem agrupamentos em áreas degradadas, com solo erodido e exposto, e em condições climáticas adversas (Ferreira et al., 2020), sendo uma espécie muito tolerante a períodos secos (Bakke et al., 2006). Tem sido altamente recomendada para a recuperação áreas degradadas (Azevedo et al., 2012; Lima et al., 2015; Miccolins et al., 2016).
Tratando-se de uma leguminosa, as raízes da M. tenuiflora formam associações com fungos micorrízicos e com bactérias fixadoras de nitrogênio (Souza et al., 2016), adaptando-se bem em solos com baixa disponibilidade desse nutriente (Azevedo et al., 2012). Isso reforça a recomendação da espécie para a recuperação de áreas degradadas e o reflorestamento da região Nordeste (Rodrigues; Giuliatti; Pereira Junior, 2020).
Ainda, a M. tenuiflora é considerada uma espécie de múltiplos produtos. A madeira é muito utilizada como mourões e estacas, pela sua resistência natural à biodegradação (Carlos et al., 2021). Apresenta também alto poder calorífico, sendo excelente para lenha e carvão vegetal, pois é considerada uma das espécies da Caatinga com maior densidade energética (Carvalho et al., 2020). Tem sido utilizada como forrageira (Souza et al., 2023) e tem usos na medicina popular com grande potencial farmacológico (Silva et al., 2024).
Diante do potencial silvicultural da espécie, este trabalho objetivou avaliar o crescimento e estimar a produtividade da M. tenuiflora em plantio homogêneo com diferentes espaçamentos, aos sete anos de idade, em uma área com solo de baixa fertilidade natural localizada no município de Macaíba, estado do Rio Grande do Norte.
Metodologia
- Localização e caracterização da área de estudo
O estudo foi realizado em uma área experimental localizada no município de Macaíba, estado do Rio Grande do Norte, com as seguintes coordenadas geográficas: 5°54’8.96″ S e 35°21’24.55″ O. O clima local é uma transição entre os tipos As e BSw da classificação de Köppen, com temperaturas elevadas ao longo do ano e chuvas concentradas entre maio e julho. A temperatura média anual é de 27°C, sendo a máxima de 32°C e a mínima de 21°C. A precipitação pluviométrica varia entre 800 e 1.200 mm por ano, sendo caracterizado como clima sub úmido (IDEMA, 2013). Entretanto, de agosto a fevereiro as precipitações médias mensais são inferiores a 100 mm na região, delimitando uma estação seca com duração de seis a sete meses (EMPARN, 2025). O solo da área é classificado como Latossolo Vermelho Amarelo Distrófico, com baixa fertilidade natural, textura média, relevo plano, fortemente drenado (IDEMA, 2013).
O plantio homogêneo de Mimosa tenuiflora avaliado neste estudo compreendia uma área de aproximadamente 1.000 m2, dividida em dois talhões com diferentes espaçamentos entre plantas: um com o espaçamento de 2 m x 2 m (4 m2/planta), contendo 75 plantas, e o outro com o espaçamento de 3 m x 3 m (9 m2/planta), contendo 70 plantas.
O preparo do solo para plantio consistiu em gradagem mecanizada e posterior coveamento. As covas para o plantio foram abertas com trator e trado, com 20 cm de diâmetro e 30 cm de profundidade. O plantio de mudas foi realizado manualmente, com adubação de base (na cova) composta por 2 L de esterco bovino curtido e 130 g de adubo mineral (10% de N, 10% de P2O5, 10% de K2O, 12% de S, 4% de Ca).
A irrigação das mudas foi realizada por ocasião do plantio e semanalmente durante dois meses após o plantio, no volume de cinco litros por muda. O controle de formigas foi realizado com iscas formicidas. Apesar disso, as mudas sofreram desfolha por formigas, demonstrando resistência e alta capacidade de rebrota. Os tratos culturais consistiram em coroamento inicial e roçada entre linhas apenas no primeiro ano.
- Coleta e análise de dados
A coleta de dados foi realizada aos sete anos de idade e compreendeu a mensuração das circunferências (na base, medida ao nível do solo, e na altura do peito, medida à 1,30 m do solo) e da altura total dos fustes contidos nos dois talhões avaliados, com diferentes espaçamentos entre plantas. As circunferências foram medidas com fita métrica e a altura total foi medida com régua altimétrica. Posteriormente as circunferências foram convertidas em diâmetros na base (DB) e na altura do peito (DAP).
O volume cilíndrico dos fustes foi estimado a partir do DAP e da altura total. Optou-se pela estimativa do volume cilíndrico em razão do fator de forma médio de 0,985 encontrado por Nunes (2015) para indivíduos de M. tenuiflora procedentes de plantios homogêneos no Ceará. O volume de lenha empilhado, em estéreos, foi estimado a partir do fator de empilhamento de 2,82 estabelecido por Barros et al. (2010) em plantios homogêneos da espécie em Pernambuco. A massa, em toneladas, foi estimada a partir da média das pesagens (peso verde) realizadas para a espécie por Carvalho e Zákia (1994) no Rio Grande do Norte, as quais variaram de 278,2 a 312,9 kg/st. Ainda, foi estimada a taxa de sobrevivência da M. tenuiflora pela relação entre o número de árvores que sobreviveram e o total de mudas plantadas.
Os dados foram tabulados no Microsoft Excel e a análise estatística foi realizada no software Biostat 5.0. Inicialmente foi realizado o teste de Shapiro-Wilk para verificação da normalidade dos dados, pressuposição para a aplicação de testes estatísticos paramétricos. Posteriormente, foi realizada a análise da variância (ANOVA) com comparação de médias pelo teste de Tukey (p < 0,05).
Resultados e Discussão
As médias de DAP e altura da Mimosa tenuiflora aos sete anos de idade não diferiram estatisticamente nos espaçamentos de plantio avaliados (Tabela 1). Entretanto, o maior espaçamento (3 m x 3 m) apresentou DB médio de 7,8 cm, superior ao menor espaçamento (2 m x 2 m), que apresentou DB médio de 5,9 cm. Os maiores espaçamentos de plantio influenciam diretamente no crescimento das plantas, pois, por serem mais amplos, disponibilizam maior área para o desenvolvimento individual, diminuindo a competição e proporcionando melhor aproveitamento de recursos (Sereghetti et al., 2015).
Tabela 1: Médias dendrométricas e taxa de sobrevivência da Mimosa tenuiflora aos sete anos de idade, em plantio homogêneo em Macaíba-RN.
Espaçamento | DB (cm) | DAP (cm) | Altura (m) | Densidade (árv./ha) | Sobrevivência (%) |
2 m x 2 m | 5,9 b | 3,6 a | 4,0 a | 2.380 a | 95,2 b |
3 m x 3 m | 7,8 a | 3,8 a | 3,8 a | 1.092 b | 98,3 a |
DB = diâmetro na base; DAP = diâmetro à 1,30 m do solo.
Médias seguidas por letras distintas na coluna diferem entre si, pelo teste de Tukey (α = 0,05).
As médias de DB e DAP encontradas neste estudo foram compatíveis com as médias de Barros et al. (2010), os quais encontraram DB médio de 5,4 cm e DAP médio de 3,8 cm em um plantio experimental de M. tenuiflora na região de Araripe, em Pernambuco, aos 6,5 anos de idade, com espaçamento de plantio de 3 m x 2 m.
Também são compatíveis com as médias encontradas por Paiva et al. (2023) em um plantio homogêneo de Mimosa caesalpiniaefolia (sabiá) com sete anos de idade, implantado próximo à área deste estudo, com espaçamento de 3 m x 2 m, apresentando DB médio de 6,5 cm e DAP médio de 3,4 cm.
Em relação à altura, não houve diferença entre os espaçamentos avaliados. As médias de altura estimadas neste trabalho (4,0 m e 3,8 m, respectivamente) foram inferiores à altura média de 7,33 m estimada por Barros et al. (2010) para o plantio de M. tenuiflora com 6,5 anos de idade.
A altura é considerada um indicador de sítio, pois reflete a produtividade do local em função das condições ambientais, como solo, disponibilidade hídrica e clima. Nesse sentido, é importante citar que Nunes (2015) estimou alturas médias entre 4,89 e 5,66 m em talhões de M. tenuiflora com 10 anos no Ceará. Além disso, Calixto, Drumond e Alves (2011) encontraram indivíduos de M. tenuiflora com altura média de 4,5 m em dois fragmentos nativos de Caatinga em Pernambuco, com idade aproximada de 10 anos.
A taxa de sobrevivência nos espaçamentos avaliados pode ser considerada alta (95,2% e 98,3%, respectivamente para o menor e o maior espaçamento). Mostram-se superiores às taxas encontradas em outros estudos para a M. tenuiflora, como a de 94% estimada por Barros et al. (2010) e a média de 87,6% estimada por Nunes (2015).
O espaçamento de plantio mais amplo (3 m x 3 m) favoreceu a produção de fustes, já que a M. tenuiflora apresenta tendência a um desenvolvimento multicaulinar. Portanto, houve diferença na densidade de fustes, onde o espaçamento mais amplo, com média de 6,8 fustes por árvore, foi superior ao menor espaçamento (2 m x 2 m), que apresentou a média de 4,8 fustes por árvore (Tabela 2).
Tabela 2: Produtividade média da Mimosa tenuiflora aos sete anos de idade em plantio homogêneo em Macaíba-RN.
Espaçamento | Fustes/árvore | Volume de madeira | IMA (m3/ha.ano) | |
Individual (m3) | Total (m3/ha) | |||
2 m x 2 m | 4,8 b | 0,8126 b | 56,43 a | 8,06 a |
3 m x 3 m | 6,8 a | 1,1291 a | 49,52 b | 7,07 b |
IMA = Incremento Médio Anual.
Médias seguidas por letras distintas na coluna diferem entre si, pelo teste de Tukey (α = 0,05).
O espaçamento de plantio mais amplo também favoreceu o crescimento volumétrico individual, ou seja, o volume médio das árvores no espaçamento de 3 m x 3 m foi superior à média do menor espaçamento. Por outro lado, em razão da maior densidade de árvores por unidade de área, o volume total foi superior (56,43 m3/ha) no espaçamento de 2 m x 2 m em relação ao espaçamento de 3 m x 3 m (49,52 m3/ha).
Os volumes estimados neste estudo foram superiores ao volume de 42,76 m3/ha estimado por Barros et al. (2010) para a M. tenuiflora. Ainda, os resultados volumétricos deste estudo também são considerados satisfatórios quando comparados com os resultados de Nunes (2015), que estimou volumes entre 40,63 e 58,94 m3/ha para plantios com idade entre 10 e 11 anos no Ceará.
Um estudo realizado no sertão Norte Riograndense mostrou que o volume estimado de madeira em uma área de Caatinga com tipologia arbustivo-arbórea fechada é de aproximadamente de 52,60 m3/ha (Francelino et al., 2003). Nessa perspectiva, considerando os volumes médios dos plantios de M. tenuiflora, infere-se que a silvicultura de espécie se apresenta como uma alternativa com potencial para a produção sustentável de madeira. Principalmente diante do tempo de produção observado, inferior à rotação do manejo florestal sustentável na Caatinga, que é, em média, de 15 anos.
Os Incrementos Médios Anuais (IMA) nos dois espaçamentos avaliados diferiram estatisticamente entre si (Tabela 3). De fato, espaçamentos menores resultam em incrementos médios mais altos nos primeiros anos, devido à maior densidade e, consequentemente ao maior acúmulo volumétrico por área. Aos sete anos de idade, o IMA do espaçamento de 2 m x 2 m foi de 8,06 m3/ha.ano e do espaçamento de 3 m x 3 m foi de 7,07 m3/ha.ano, superiores ao IMA de 6,58 m3/ha.ano estimado por Barros et al. (2010) para um plantio de M. tenuiflora em Pernambuco com 6,5 anos de idade.
Tabela 3: Incremento Médio Anual (IMA) da Mimosa tenuiflora em diferentes idades em plantio homogêneo em Macaíba-RN.
Idade (anos) | IMA (m3/ha.ano) | |
Espaçamento 2 m x 2 m | Espaçamento 3 m x 3 m | |
3 | 5,21 a | 3,45 b |
5 | 8,9 a | 6,03 b |
7 | 8,06 a | 7,07 b |
Médias seguidas por letras distintas na linha diferem entre si, pelo teste de Tukey (α = 0,05).
A Tabela 4 apresenta a conversão volumétrica e o conteúdo energético por unidade de área da M. tenuiflora. Assim, o volume de lenha empilhado corresponde a 159,13 st/ha e 139,65 st/ha, respectivamente para os espaçamentos de 2 m x 2 m e de 3 m x 3 m. Em outro estudo, o volume empilhado da M. tenuiflora aos 6,5 anos de idade foi estimado em 120,27 st/ha (Barros et al., 2010).
Tabela 4: Conversão volumétrica e conteúdo energético por unidade de área da Mimosa tenuiflora aos sete anos de idade em plantio homogêneo em Macaíba-RN.
Espaçamento | Estéreos/ha | Toneladas/ha | kcal/ha* | MJ/ha* |
2 m x 2 m | 159,13 a | 47,36 a | 230.169,6 a | 962,8 a |
3 m x 3 m | 139,65 b | 41,56 b | 201.981,6 b | 844,9 b |
* Com base no poder calorífico médio estimado por Santos et al. (2013) e Carvalho et al. (2020).
Médias seguidas por letras distintas na coluna diferem entre si, pelo teste de Tukey (α = 0,05).
A produção de lenha da M. tenuiflora estimada neste trabalho mostrou-se ligeiramente superior à da vegetação nativa da Caatinga submetida ao manejo florestal sustentável, conforme dados da Rede de Manejo da Caatinga, para locais com precipitação média de 800 a 1200 mm/ano, onde o tempo para recuperar o estoque de 150 st/ha varia entre 8 e 10 anos (Pareyn et al., 2024). Ainda evidenciando o bom resultado da espécie, em áreas de Caatinga arbustivo-arbórea na região de Pernambuco, Meunier (2014) encontrou volumes de lenha estimados em 74,56 st/ha e 29,7 st/ha.
A massa de lenha estimada no espaçamento de 2 m x 2 m foi de 47,36 t/ha, enquanto no espaçamento de 3 m x 3 m foi de 41,56 t/ha. Ao estudar um povoamento de M. tenuiflora aos 5 anos de idade, Araújo, Leite e Paes (2004) quantificaram apenas 22,90 t/ha de biomassa, bastante inferior aos valores estimados neste trabalho. Por outro lado, Nunes (2015) estimou a produção de lenha entre 36,32 e 55,33 t/ha em plantios com idade entre 10 e 11 anos no Ceará.
O poder calorífico da madeira depende da espécie. O PCS da M. tenuiflora é considerado elevado, apresentando uma média de 4.860 kcal/kg, equivalente a 20,33 MJ/kg (Santos et al., 2013; Carvalho et al., 2020). O PCS M. tenuiflora também foi estimado em 18,75 MJ/kg por Oliveira (2003) e em 18,16 MJ/kg por Gondim (2018). Paiva et al. (2023) encontraram para a madeira Mimosa caesalpiniaefolia (sabiá) PCS de 4.161 kcal/kg. Assim, o conteúdo energético foi estimado em 962,8 MJ/ha para o espaçamento de 2 m x 2 m e em 844,9 MJ/ha para o espaçamento de 3 m x 3 m.
Considerações Finais
A Mimosa tenuiflora (Willd.) Poiret (jurema-preta) demonstrou adaptação edafoclimática e elevado potencial silvicultural em plantio homogêneo. Aos sete anos de idade, a espécie apresentou alta taxa de sobrevivência, resistência ao ataque de formigas e boa produtividade em ambos os espaçamentos avaliados, destacando-se o espaçamento de 2 m x 2 m pelo maior volume de madeira por hectare. Por outro lado, o espaçamento mais amplo (3 m x 3 m) favoreceu o crescimento individual das árvores, resultando em maior diâmetro na base e maior número médio de fustes por planta.
Os volumes estimados evidenciam o potencial da M. tenuiflora para a produção sustentável de lenha, com vantagens em relação à vegetação nativa manejada, especialmente considerando seu ciclo mais curto de produção. Dessa forma, a silvicultura da M. tenuiflora se apresenta como uma alternativa viável para o suprimento energético e a recuperação de áreas degradadas na região.
Referências
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CAPÍTULO 3
RESPOSTAS DE Mimosa tenuiflora AO ESTRESSE HÍDRICO E SALINO: PESQUISAS E EVIDÊNCIAS DE TOLERÂNCIA AO SEMIÁRIDO
RESPONSES OF Mimosa tenuiflora TO WATER AND SALT STRESS: RESEARCH AND EVIDENCE OF TOLERANCE IN SEMIARID CONDITIONS
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.03
Submetido em: 07/08/2025
Revisado em: 05/09/2025
Publicado em: 12/09/2025
Elaine Cristina Alves da Silva
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0000-0002-8970-376X
Atila Bruno de Moraes Almeida
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0000-0002-9808-1077
Cleuma Christir da Silva Almeida
Coordenação Regional de Pesquisa e Inovação em Rondônia (COPIR) – Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira – CEPLAC/SDI/MAPA
Ouro Preto do Oeste, Rondônia – RO
https://orcid.org/0000-0003-1501-1610
Jacqueline Wanessa de Lima Pereira
Universidade Federal da Paraíba, Departamento de Agricultura, Bananeiras – PB
https://orcid.org/0000-0002-6499-2067
Athirson Virginio Nogueira
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0009-0007-7808-9454
Laizy Nascimento dos Santos
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0009-0002-1529-1595
Hevelly Ézia Camilo da Silva
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0009-0007-1964-5123
Maria José de Holanda Leite
Instituto Federal do Rio Grande do Norte, Departamento de Biologia, Pau dos Ferros – RN
https://orcid.org/0000-0003-4154-3901
Irlan Paulo Ferreira Campelo
Universidade Federal Rural de Pernambuco, Departamento de Ciências Florestais, Recife – PE
https://orcid.org/0009-0007-7014-3583
Tatiane Kelly Barbosa de Azevêdo
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0000-0001-6392-3548
Resumo
Introdução: O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é uma síndrome metabólica na qual os níveis de glicemia Compreender os mecanismos de adaptação da vegetação nativa da Caatinga são fundamentais para otimizar seu manejo e ampliar sua propagação para viabilizar plantios em larga escala. A Mimosa tenuiflora é uma espécie de grande importância ecológica para o semiárido, além de possuir potencial para aplicações industriais e agroflorestais. Diante do exposto, esta revisão tem como objetivo realizar um levantamento das respostas das plantas em condições adversas, bem como das pesquisas desenvolvidas com a Mimosa tenuiflora para identificar os mecanismos de tolerância desenvolvidos para se desenvolver em tais situações. Para isso, foi realizada uma busca na literatura sobre as respostas fisiológicas e bioquímicas, bem como uma busca nas bases de dados sobre pesquisas com a espécie. As bases de dados utilizadas foram a Scopus, Web of Science, Scielo Brasil e Google Acadêmico. Dos 136 trabalhos encontrados, apenas seis correspondiam a pesquisas empíricas desenvolvidas com mudas da espécie em condição de déficit hídrico e salinidade. Os estudos indicaram que a espécie possui mecanismos de tolerância ao estresse hídrico, como fechamento estomático, acúmulo de solutos osmóticos e rápida recuperação após reidratação. No entanto, apresentou elevada sensibilidade à salinidade, com reduções significativas na biomassa, no crescimento e na eficiência do uso da água, evidenciando limitações para seu cultivo em solos salinos. Apesar da tolerância à seca, a espécie apresenta restrições em ambientes com alta salinidade. Dessa forma, seu uso em plantios de larga escala deve considerar as condições edafoclimáticas do semiárido, sendo recomendada para áreas com baixa salinidade.
Palavras-chave: Déficit hídrico. Salinidade. Jurema preta. Crescimento. Fotossíntese.
Abstract:
Understanding the adaptation mechanisms of native Caatinga vegetation is essential for optimizing its management and expanding its propagation to enable large-scale plantations. Mimosa tenuiflora is a species of great ecological importance for the semiarid region and also has potential for industrial and agroforestry applications. Given this context, this review aims to survey plant responses under adverse conditions, as well as research conducted with Mimosa tenuiflora to identify the tolerance mechanisms developed for growth under such conditions. To this end, a literature search was carried out focusing on physiological and biochemical responses, as well as a database search for studies involving the species. The databases used were Scopus, Web of Science, SciELO Brasil, and Google Scholar. Of the 136 works found, only six corresponded to empirical research conducted with seedlings of the species under water deficit and salinity conditions. The studies indicated that the species has tolerance mechanisms to water stress, such as stomatal closure, accumulation of osmotic solutes, and rapid recovery after rehydration. However, it showed high sensitivity to salinity, with significant reductions in biomass, growth, and water use efficiency, revealing limitations for its cultivation in saline soils. Despite its drought tolerance, the species presents restrictions in environments with high salinity. Therefore, its use in large-scale plantations must take into account the edaphoclimatic conditions of the semiarid region, being recommended for areas with low salinity.
Keywords: Water deficit, salinity. Mimosa tenuiflora. Growth. Photosynthesis.
Introdução
O crescimento e o desenvolvimento das plantas são afetados por diversos fatores, tais como a disponibilidade hídrica e a presença de sais no solo. Em regiões áridas e semiáridas, o déficit de água é um desafio constante, enquanto em áreas costeiras e regiões afetadas pela irrigação inadequada, a salinidade do solo pode atingir elevados níveis e causar sérios prejuízos às plantas (Arulmathi; Porkodi, 2020; Priyan, 2021).
No contexto das mudanças climáticas e do aumento da degradação ambiental, a compreensão dos mecanismos de tolerância das plantas a essas condições adversas torna-se ainda mais relevante. As alterações nos padrões de precipitação, o aumento das temperaturas e a intensificação de eventos climáticos extremos podem exacerbar os problemas relacionados à disponibilidade de água e à salinidade do solo (Corwin, 2021).
O estudo das respostas fisiológicas e bioquímicas das plantas a esses estresses abióticos é essencial para o desenvolvimento de estratégias de manejo sustentável e para a seleção de espécies mais tolerantes. Além disso, essa compreensão pode contribuir para a conservação de espécies nativas em ecossistemas naturais ameaçados pelas mudanças ambientais globais (Geary et al., 2023).
A Caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro, localizado no semiárido, caracterizado por sua vegetação xerófita e adaptada a longos períodos de estiagem. As espécies vegetais que compõem esse ecossistema desenvolveram mecanismos fisiológicos e morfológicos para lidar com o déficit hídrico e a alta variabilidade climática (Mesquita; Pinto; Moreira, 2017).
Dentro desse contexto, destaca-se a Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., conhecida popularmente como jurema-preta. Essa espécie arbórea, pertencente à família Fabaceae, apresenta uma ampla distribuição no semiárido nordestino e desempenha um papel fundamental na dinâmica ecológica da Caatinga, contribuindo para a fixação de nitrogênio no solo e fornecendo recursos alimentares para a fauna local (Chagas; Lucas; Vieira, 2020).
A espécie é reconhecida por seu rápido crescimento e capacidade de regeneração em áreas degradadas. Essas propriedades fazem da jurema-preta um importante componente na recuperação de ecossistemas e no combate à desertificação em regiões áridas e semiáridas (Nunes, 2012). A espécie tem sido estudada por suas propriedades medicinais e potencial uso em sistemas agroflorestais, destacando sua importância ecológica e econômica para as comunidades do semiárido brasileiro (Santos et al., 2022; Miranda et al., 2024)
O presente capítulo tem como objetivo revisar os efeitos do estresse hídrico e salino sobre M. tenuiflora, enfatizando os principais mecanismos de adaptação e tolerância desenvolvidos por essa espécie. Serão abordados aspectos relacionados à fisiologia da planta, como o ajustamento osmótico, alterações na fotossíntese e interações com o ambiente.
Metodologia
Foi realizada uma revisão de literatura sobre os mecanismos desenvolvidos pelas plantas em condições adversas de estresse hídrico e salino, com o objetivo de identificar as estratégias utilizadas para adaptação e sobrevivência nesses ambientes.
Em seguida, foi realizada uma busca nas bases de dados da Scopus, Web of Science, SciELO e Google Acadêmico de pesquisas desenvolvidas com a Mimosa tenuiflora. Foram utilizadas as seguintes palavras-chave: Mimosa tenuiflora OR jurema-preta AND Fotossíntese OR Relações hídricas OR Crescimento OR Photosynthesis OR Water relations OR Growth AND Estresse hídrico OR Estresse salino OR Water stress OR Salt stress.
Foram identificados 136 trabalhos, incluindo artigos, teses, dissertações e monografias. Após a triagem e análise inicial, apenas seis estudos abordavam especificamente estudos empíricos sobre a espécie em questão. Com base nesses trabalhos, foi realizada uma leitura detalhada para identificar os tratamentos aplicados, as variáveis avaliadas e os principais resultados obtidos. A partir disso, foi feita uma descrição e interligação dos dados para compreender as estratégias desenvolvidas pela Mimosa tenuiflora sob condições de estresse hídrico e salino.
Resultados e Discussão
- Mecanismos de adaptação da Mimosa tenuiflora ao Estresse Hídrico: Estratégias de Sobrevivência e Limitações
As mudas de Mimosa tenuiflora sofrem progressivamente com as quedas das taxas fotossintéticas durante sete dias, devido a submissão das mesmas em déficit hídrico, alcançando 48% da queda do teor relativo de água (TRA) e a fotossíntese totalmente inibida no último dia. Após a reidratação, observou-se recuperação completa da fotossíntese até o terceiro dia. O estresse hídrico também elevou os teores de açúcares solúveis e aminoácidos livres, os quais retornaram aos níveis normais após a reidratação (Alves, 2019).
Lima (2019), no Laboratório de Fisiologia de Sementes (LAFISE) da Universidade Federal de Sergipe avaliou o efeito do déficit hídrico em sementes e plântulas de Mimosa tenuiflora. Os tratamentos consistiram em ciclos de hidratação e desidratação (ciclos de HD) aplicados. Especificamente, foram utilizados 0 (controle), 1, 2 e 3 ciclos de HD. Para a germinação, foram avaliados a germinabilidade (%), o índice de sincronização e o tempo para obtenção de 50% das sementes germinadas (T50). Para o desenvolvimento inicial, foram medidos o comprimento do caule e da raiz, o diâmetro do caule, o número de folhas e folíolos, e o peso seco das folhas, caule e raízes.
Para a germinação, o T50 foi significativamente influenciado pelos tratamentos de hidratação e desidratação, com uma redução de aproximadamente 50% nos valores após as sementes serem submetidas a 1, 2 e 3 ciclos de HD. A germinabilidade das sementes não apresentou diferença estatística significativa entre os tratamentos, bem como a sincronização da germinação que também não foi influenciada pela hidratação descontínua. Em relação ao desenvolvimento inicial, as plântulas produzidas a partir de sementes submetidas aos ciclos de HD apresentaram o maior comprimento do caule, maior diâmetro do caule, maiores valores de massa seca de folhas, caule e raízes. Os ciclos de HD não influenciaram o comprimento da raiz e o número de folhas e folíolos.
Os ciclos de hidratação-desidratação (HD) demonstraram ter um impacto significativo no desenvolvimento inicial de Mimosa tenuiflora, uma espécie vegetal adaptada a ambientes áridos e semiáridos. Embora a germinabilidade não tenha sido afetada, os ciclos de HD reduziram o tempo necessário para a germinação, mas produziram plântulas mais vigorosas em diversos aspectos do desenvolvimento inicial. Este fenômeno, conhecido como memória hídrica de sementes, confere vantagens competitivas importantes às plântulas resultantes, permitindo-lhes estabelecer-se mais rapidamente e com maior vigor em comparação com aquelas provenientes de sementes submetidas a hidratação contínua.
As implicações ecológicas desses resultados são significativas para a sobrevivência e distribuição de Mimosa tenuiflora em ecossistemas semiáridos. A capacidade de resistir aos ciclos de HD é considerada uma adaptação crucial para maximizar o estabelecimento de plântulas em ambientes com recursos hídricos limitados e condições adversas. Esta característica pode explicar a ampla distribuição da espécie nos ecossistemas semiáridos do Nordeste do Brasil, onde a competição por recursos é intensa. A memória hídrica de sementes, portanto, representa um mecanismo importante que permite à M. tenuiflora não apenas sobreviver, mas também desenvolver em condições ambientais desafiadoras, contribuindo para sua resiliência ecológica e sucesso evolutivo nestes habitats.
O estudo conduzido por Leite et al. (2023) investigou a resposta da Mimosa tenuiflora a diferentes condições hídricas, em casa de vegetação da Universidade Federal Rural do Semiárido, no município de Mossoró. Os pesquisadores dividiram as mudas em três grupos: controle com irrigação diária, submetido a estresse hídrico por sete dias, e período de seca seguido de reidratação. Foi avaliado o status hídrico das plantas, as alterações bioquímicas, bem como a produção e alocação de biomassa.
Foi observado que durante o estresse hídrico, as mudas de Mimosa tenuiflora apresentaram um aumento significativo nos níveis de prolina, com um aumento de 30,7 vezes em comparação com as plantas controle. A acumulação de açúcares solúveis também foi observada, contribuindo para a homeostase celular e ajuste osmótico. Após o tratamento de seca, a concentração de clorofila a aumentou de 1,12 ± 0,20 para 2,15 ± 0,87 mg.g−1, indicando uma adaptação na fotossíntese sob estresse. Apesar da redução da condutância estomática, a concentração de CO2 intercelular aumentou, indicando que o CO2 não foi um fator limitante para a fotossíntese.
Tabela 1: Pesquisas desenvolvidas sobre os efeitos do estresse hídrico e salino em mudas de Mimosa tenuiflora.
Autor | Local da pesquisa | Tratamento | Duração | Avaliação | |
ESTRESSE HÍDRICO | |||||
Lima (2019) | Universidade Federal de Sergipe | – Ciclo de hidratação e desidratação: 0 (controle); 1, 2 e 3 ciclos | 10 dias | – Germinabilidade – Altura, Número de folha, peso seco de folha, caule e raiz | |
Alves (2019) | Universidade Federal de Campina Grande | – Rega diária – Suspensão por 7 dias – Reidratação | 10 dias | – Teor Relativo de água – -Trocas gasosas (transpiração, condutância estomática, taxa de fotossíntese, concentração interna de CO2) – Bioquímica (açúcares solúveis totais, proteínas, aminoácidos livres totais) | |
Leite (2019) | Universidade Federal Rural do Semiárido (Mossoró) | – Irrigação diária – Estresse hídrico por 7 dias – Reidratação por 3 dias, após 7 dias de estresse | 17 dias | – Potencial hídrico foliar – Bioquímica (açúcar solúveis totais, aminoácidos, prolina, clorofila a e b – Trocas gasosas (Condutância estomática, transpiração, concentração interna de CO2) – Produção de biomassa | |
ESTRESSE SALINO | |||||
França (2002) | Universidade Federal de Campina Grande | – 0,5 (Controle), 2,0, 3,5, 5,0 e 6,5 dS.m-1 (Obtidas por adição de NaCl, CaCl2.2H2O e MgCl2.6H2O em solução nutritiva) | 30 dias | – Teor relativo de água – Trocas gasosas (condutância estomática, taxa de transpiração, concentração intercelular de CO2 e taxa de fotossíntese) – Crescimento (altura das plantas, diâmetro do caule, taxa de crescimento relativo (TCR) e produção de matéria seca (folhas, caule, raízes e total). | |
Souza Neto (2011) | Universidade Federal Rural do Semi-Árido | -0,46 (testemunha), 3,2; 3,78; 5,02 e 5,96 dS.m-1 (Obtidas com água de rejeito de dessalinizador) | 81 dias | – Crescimento (peso seco da folha (PMSF), do caule (PMSC) e da raiz (PMSR), além da área foliar (AF) e altura das plantas (AL) | |
Bessa (2012) | Universidade Federal do Ceará | – 1,2; 2,7; 4,7; 6,7 e 8,4 dS.m-1 (Obtidas de solo do Perímetro irrigado de Morada Nova) | 90 dias | – Crescimento (altura, diâmetro do caule, área foliar, massa seca da parte aérea, massa seca da raiz e relação MSPA/MSR) – Trocas gasosas (condutância estomática, transpiração, fotossíntese, eficiência intrínseca no uso da água e eficiência momentânea no uso da água) – Bioquímica (N-aminossolúveis, carboidratos e prolina, sódio, potássio e cloreto) | |
Em conjunto, os resultados indicam que a Mimosa tenuiflora possui estratégias fisiológicas e bioquímicas que favorecem sua sobrevivência e estabelecimento em ambientes semiáridos, combinando tolerância ao estresse hídrico com mecanismos de rápida recuperação e adaptação.
- Respostas de Mimosa tenuiflora ao Estresse Salino: Estratégias de Sobrevivência e Limitações
Em ambiente telado no Viveiro Florestal da Unidade Acadêmica de Engenharia Florestal/ Universidade Federal de Campina Grande (UAEF/UFCG), França (2002) conduziu um experimento avaliando os efeitos da salinidade em Mimosa tenuiflora. Foram utilizados cinco níveis de condutividade elétrica (CE) em solução nutritiva: 0,5 (Controle), 2,0, 3,5, 5,0 e 6,5 dS.m-1. A salinização das soluções foi obtida por meio da adição de uma mistura de sais (NaCl, CaCl2.2H2O e MgCl2.6H2O) à solução nutritiva. Os parâmetros analisados incluíram o teor relativo de água (TRA), parâmetros estomáticos (condutância estomática, taxa de transpiração, concentração intercelular de CO2 e taxa de fotossíntese), altura das plantas, diâmetro do caule, taxa de crescimento relativo (TCR) e produção de matéria seca (folhas, caule, raízes e total).
Como resultado, foi observado reduções lineares no TRA conforme o aumento da salinidade de 16% e 24% no TRA para os tratamentos de 2,0 e 3,5 dS m-1, respectivamente, em comparação com o controle. Nos níveis mais altos de salinidade, as reduções chegaram a 53% (5,0 dS.m-1) e 60% (6,5 dS.m-1). Para a condutância estomática, foram observados decréscimos de 55%, 82% e 92% nos tratamentos de 3,5, 5,0 e 6,5 dS.m-1, respectivamente, em relação ao controle. Houve redução de 5,9 mmol m-2 s-1 (controle) para 4,5, 3,9, 3,7 e 3,6 mmol m-2.s-1 nos tratamentos de 2,0, 3,5, 5,0 e 6,5 dS.m-1, respectivamente para a respiração. Isso representa depleções de 24%, 34%, 37% e 39%. Reduções de 21%, 22%, 32% e 45% foram observadas nos tratamentos de 2,0, 3,5, 5,0 e 6,5 dS m-1, respectivamente, em comparação com o controle. Na parte aérea, houve decréscimo de 61% e 70% nos tratamentos de 5,0 e 6,5 dS.m-1, respectivamente, em comparação com o controle. Nas raízes, as reduções foram de 60% (5,0 dS.m-1) e 72% (6,5 dS.m-1).
Souza Neto et al., (2011) avaliaram os efeitos da salinidade na água de irrigação da Mimosa tenuiflora por 81 dias, no Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA), situado no município de Mossoró – RN. Os tratamentos consistiram em cinco níveis de salinidade na água de irrigação, obtidos pela diluição do rejeito da dessalinização em água de abastecimento: T1: 100% água de abastecimento (testemunha); T2: 25% água de rejeito + 75% água de abastecimento; T3: 50% água de rejeito + 50% água de abastecimento; T4: 75% água de rejeito + 25% água de abastecimento; T5: 100% água de rejeito coletada no dessalinizador. Estes tratamentos corresponderam condutividades elétricas de 0,46 (testemunha), 3,2; 3,78; 5,02 e 5,96 dS.m-1, respectivamente. Foram avaliados o peso seco da folha (PMSF), do caule (PMSC) e da raiz (PMSR), além da área foliar (AF) e altura das plantas (AL)
Nessas condições, a espécie apresentou uma diminuição linear na altura das plantas com o aumento da salinidade, com decréscimos de 3,95%, 9,26%, 20,37% e 20,99% em relação à testemunha para os níveis crescentes de salinidade e diminuições de 1,74%, 5,95%, 18,15% e 26,18% para PMSF e 6,41%, 14,24%, 18,06% e 25,48% para PMSR em função do aumento da salinidade. Verificou-se redução linear na área foliar, com decréscimos de 7,49%, 21,31%, 24,91% e 33,28% em relação ao tratamento testemunha. Os autores atribuem à regulação no crescimento das mudas como uma estratégia utilizada pela espécie para a tolerância à condição de salinidade
Em sua pesquisa, Bessa (2012), conduziu um experimento no Núcleo de Ensino e Pesquisa em Agricultura Urbana (NEPAU) do departamento de Fitotecnia da Universidade Federal do Ceará – UFC, situada em Fortaleza. Foi utilizado cinco níveis de salinidade do solo, em diferentes condutividades elétricas de 1,2; 2,7; 4,7; 6,7 e 8,4 dS.m-1. Foram avaliadas as variáveis de crescimento como altura, diâmetro do caule, área foliar, massa seca da parte aérea, massa seca da raiz e relação MSPA/MSR; as trocas gasosas, pela condutância estomática, transpiração, fotossíntese, eficiência intrínseca no uso da água e eficiência momentânea no uso da água; além dos teores de solutos orgânicos nas folhas, como os N-aminossolúveis, carboidratos e prolina e solutos inorgânicos nas folhas e hastes, como sódio, potássio e cloreto.
A jurema preta demonstrou alta sensibilidade à salinidade, especialmente no nível mais elevado de condutividade elétrica (8,4 dS.m-1). Nessa condição, a espécie foi classificada como sensível (S), apresentando reduções na massa seca total entre 63,36% e 91,23%. Com base na tabela de classificação de espécies quanto à tolerância à salinidade, proposta por Fageria, Soares Filho e Gheyi, a jurema preta foi categorizada como sensível, uma vez que a redução na produção excedeu 60%. Esses resultados destacam a vulnerabilidade da espécie a ambientes com altos níveis de salinidade no solo, fornecendo informações valiosas para o manejo e cultivo dessa planta em regiões afetadas por esse estresse abiótico.
Os efeitos negativos do estresse foram predominantes, indicando que a Mimosa tenuiflora não possui mecanismos eficazes para tolerar altas concentrações salinas. Assim, apesar de apresentar algumas respostas adaptativas, como ajustes no crescimento e no metabolismo osmótico, a espécie demonstra baixa resiliência a solos altamente salinos, exigindo cuidados específicos em ambientes sujeitos a esse estresse abiótico.
- Plasticidade da Mimosa tenuiflora frente aos estresses abióticos
Nas plantas da Caatinga se observa uma plasticidade fisiológica que é fundamental para sua sobrevivência em um ambiente caracterizado por longos períodos intermitentes de seca. Esta capacidade de ajuste permite que as plantas modifiquem sua fisiologia em resposta às variações nas condições ambientais, particularmente à baixa disponibilidade hídrica (SCHLICHTING, 1986).
Durante os períodos de escassez hídrica, essas plantas podem diminuir sua taxa de transpiração, fechar seus estômatos, diminuir a área foliar e ainda entrar em estado de dormência, minimizando assim a perda de água e maximizando sua eficiência no uso dos recursos disponíveis (SHAO et al., 2015). Além disso, essa plasticidade se manifesta em diversos aspectos da sua fisiologia, incluindo alterações na composição química das folhas, modificações na arquitetura radicular para explorar melhor a água disponível no solo, e ajustes na produção de osmoprotetores que auxiliam na manutenção do turgor celular (MOU et al., 2013).
Tais adaptações permitem que as plantas desse Bioma não apenas sobrevivam, mas também se reproduzam e se estabeleçam neste ecossistema desafiador. A capacidade de responder rapidamente às mudanças ambientais confere a essas espécies uma vantagem competitiva, tornando-as resilientes frente às condições extremas e imprevisíveis características do bioma caatinga (DE OLIVEIRA et al., 2012).
Essa plasticidade fisiológica também se estende à capacidade de algumas espécies de armazenar água em órgãos especializados, como caules suculentos ou raízes tuberosas, permitindo-lhes sobreviver por períodos prolongados sem chuva. Ademais, muitas plantas da Caatinga desenvolveram mecanismos de floração e frutificação rápidos, aproveitando ao máximo os curtos períodos de disponibilidade hídrica para completar seu ciclo reprodutivo. Essas adaptações, em conjunto, demonstram a notável resiliência e diversidade das estratégias evolutivas presentes na flora da Caatinga, ressaltando a importância da conservação deste ecossistema único e sua biodiversidade (NAVAS et al., 2004).
Considerações Finais
Embora poucas pesquisas tenham sido encontradas sobre a Mimosa tenuiflora em condições adversas, o comportamento observado demonstra padrões que foram observados nas pesquisas, como:
Em condições de deficiência hídrica, a espécie adota mecanismos como o fechamento estomático para reduzir a perda de água, o acúmulo de solutos osmóticos, como açúcares solúveis e aminoácidos, e a capacidade de recuperação rápida da fotossíntese após reidratação, demonstrando resiliência ao estresse hídrico moderado. Além disso, a memória hídrica observada em suas sementes contribui para a germinação mais eficiente em ambientes secos, favorecendo o estabelecimento inicial das plântulas.
Em condições de salinidade, a espécie é sensível a altos níveis, apresentando reduções significativas no crescimento, na biomassa e nos processos fisiológicos essenciais, como a fotossíntese e a transpiração. As estratégias adaptativas como a regulação do crescimento e o acúmulo de solutos osmóticos não são suficientes para garantir a tolerância em ambientes altamente salinos.
A Mimosa tenuiflora demonstrou ser uma espécie adaptada às condições do semiárido, apresentando mecanismos fisiológicos e bioquímicos que lhe conferem tolerância ao déficit hídrico com limitação em áreas com certos níveis de sais.
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CAPÍTULO 4
A IDADE DA Mimosa tenuiflora INFLUENCIA NA CONCENTRAÇÃO DE TANINOS CONDENSADOS?
DOES THE AGE OF Mimosa tenuiflora INFLUENCE THE CONCENTRATION OF CONDENSED TANNINS?
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.04
Submetido em: 07/08/2025
Revisado em: 05/09/2025
Publicado em: 12/09/2025
João Paulo Silva Gomes
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0000-0003-1319-3633
Tatiane Kelly Barbosa de Azevêdo
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0000-0001-6392-3548
Bruna Rafaella Ferreira da Silva
Universidade Federal Rural de Pernambuco, Departamento de Ciências Florestais, Recife- PE
https://orcid.org/0000-0002-7251-5092
João Gilberto Meza Ucella Filho
Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Engenharia Florestal, Viçosa – MG
https://orcid.org/0000-0001-9797-3332
Cássia Regina de Almeida Moraes
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
http://lattes.cnpq.br/8729982524994352
Denys Santos de Souza
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0009-0002-8043-7167
Kayo Lucas Batista de Paiva
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0009-0007-4102-5844
Paula Evanyn Pessoa do Nascimento
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
http://lattes.cnpq.br/9164135693908163
Juliana Lorensi do Canto
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0000-0003-1551-1543
Elaine Cristina Alves da Silva
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0000-0002-8970-376X
Resumo
Dada a importância social, econômica e ecológica dos taninos condensados, estudos vêm sendo cada vez mais realizados buscando responder informações importantes quanto aos seus potenciais usos. Paralelo a isso, se fazem necessários estudos que forneçam subsídios para o fortalecimento da cadeia produtiva das espécies detentoras desses taninos, sendo a Mimosa tenuiflora uma dessas espécies em destaque. Diante disso, esse estudo teve como objetivo investigar se a idade da Mimosa tenuiflora influencia na concentração de taninos condensados presentes em sua casca. O plantio de jurema-preta foi instalado em novembro de 2013, no município de Macaíba-RN. Foram selecionadas cinco árvores saudáveis para retirada de amostras de suas cascas no mês de novembro, no período de 2016 a 2021, respectivamente de 3 a 8 anos de idade. Após coletadas, as cascas foram secas, moídas e classificadas. Foram utilizadas 2 amostras de 25 g de cada árvore. O extrato obtido foi passado em peneira de 150 “mesh” (0,105 mm), e em tecido de flanela, filtrado em funil de vidro sinterizado de porosidade 2 e concentrado para 250 ml. Em seguida, foram determinados o teor de sólidos totais (TST), seu índice de Stiasny (IS) e calculado seu teor de taninos condensados (TTC). As plantas com 3, 4 e 5 anos de idade, apresentaram resultados iguais estatisticamente para os dados percentuais de TTC e TST, diferindo dos 6, 7 e 8 anos. O IS em todas as idades se manteve iguais estatisticamente. Os dados encontrados expressam que plantas jovens de Mimosa tenuiflora apresentam dados de TTC que se mantêm constantes, enquanto, com o avanço da idade, tendem a reduzirem significativamente a sua concentração, em seguida se estabilizando entre 7 e 8 anos. É possível indicar para fins silviculturais que a idade entre 3 e 5 anos é a mais indicada para extração de taninos da espécie jurema preta para as condições estudadas.
Palavras-chave: Jurema preta. Silvicultura. Produtos florestais não-madeireiros. Substâncias tânicas.
Abstract:
Given the social, economic, and ecological importance of condensed tannins, studies have increasingly been conducted to provide valuable information about their potential uses. In parallel, there is a need for research that supports the strengthening of the productive chain of species rich in these tannins, with Mimosa tenuiflora being one of the most prominent. Therefore, this study aimed to investigate whether the age of Mimosa tenuiflora influences the concentration of condensed tannins present in its bark. The jurema-preta plantation was established in November 2013, in the municipality of Macaíba, RN, Brazil. Five healthy trees were selected for bark sampling each November from 2016 to 2021, corresponding to ages from 3 to 8 years. After collection, the bark samples were dried, ground, and classified. Two 25 g samples were used from each tree. The extract was sieved using a 150 mesh screen (0.105 mm), filtered through flannel fabric and a sintered glass funnel with porosity 2, and concentrated to 250 mL. The total solids content (TST), Stiasny index (IS), and condensed tannin content (CTC) were then determined. Trees aged 3, 4, and 5 years showed statistically similar results for both CTC and TST, differing from those aged 6, 7, and 8 years. The IS remained statistically similar across all ages. The data suggest that young Mimosa tenuiflora trees maintain stable levels of condensed tannins, while older trees show a significant decrease, which stabilizes between 7 and 8 years of age. For silvicultural purposes, the age range between 3 and 5 years is the most suitable for tannin extraction from Mimosa tenuiflora under the studied conditions.
Keywords: Jurema-preta. Silviculture. Non-timber forest products. Tannic substances.
Introdução
Os taninos vegetais são compostos fenólicos, derivados do metabolismo secundário de plantas (Bhat; Singh; Sharma, 1998; Spencer et al., 1988). Estão presentes em diversas partes do vegetal, como raízes, lenho, casca, folhas, frutos, sementes e seiva. Essas substâncias possuem um sabor adstringente que auxiliam a espécie contra-ataques de fungos, bactérias e vírus. Podendo também proteger contra os herbívoros, pois causam efeitos nocivos aos animais (Battestin, 2004).
O Brasil é um dos maiores produtores de taninos condensados do mundo, exportando para mais de 70 países, cerca de 30.000 toneladas anuais de extratos (TANAC, 2013), e sua maior fonte é proveniente da espécie Acácia mearnsii, espécie com cultura silvicultural consolidada na região sul do país. Novas espécies florestais têm se destacado quanto ao seu uso potencial como fonte de taninos condensados, um produto florestal não madeireiro de significativo valor econômico, social e ecológico para o setor florestal do país (Azevêdo et al., 2017; Musial et al., 2020; Paes et al., 2006).
Observado o mercado promissor para as diferentes aplicações dos taninos, é essencial a busca de novas espécies produtoras e a obtenção de novas tecnologias que busquem a utilização dos recursos de maneira sustentável com aplicação para os mais diversos setores da sociedade. Neste sentido, os taninos extraídos da casca da Mimosa tenuiflora vêm sendo pesquisados há mais de uma década e se destacam em suas diferentes aplicações, tais como, o curtimento de pele animal (Lima et al., 2014), produção de adesivo de madeira (Silva et al., 2022), e ação coagulante no tratamento de água (Souza et al., 2024), dentre outras.
A Mimosa tenuiflora, conhecida popularmente como jurema preta, pertencente à família Fabaceae, é uma espécie pioneira e de ampla distribuição do Nordeste brasileiro. Destaca-se como uma importante fonte de alimento para os animais da região, sendo amplamente empregada na produção de forragem (Lima , 1996). Com seu porte, também possibilita sombras aos animais e proteção ao solo e a formação de serrapilheira, onde auxilia no desenvolvimento de outras espécies vegetais (Maia, 2004). Sua madeira é amplamente utilizada, principalmente, como fonte de energia e estacas e mourões (Lopes et al., 2022), entretanto, estudos silviculturais se fazem necessários para fortalecer a cadeia produtiva da espécie, visando agregar valor e buscar sua maior produtividade.
Estudos demonstram que o período de coleta da planta influencia em até 50% de sua produtividade, um dado importante para a produção dos taninos (Souza et al., 2021; Silva et al., 2024). A literatura também relata que quanto mais idade tiver uma planta, maior será a concentração de taninos, porém, essa informação se faz necessária ser testada individualmente, pois as espécies se comportam de formas diferentes diante dos fatores externos (AZEVEDO et al., 2024; ULANDARI et al., 2024).
Sendo assim, esta pesquisa tem o objetivo de verificar se a idade da Mimosa tenuiflora influência na concentração de taninos condensados presentes em sua casca, a fim de identificar a idade ideal para a extração desses compostos. Com tais informações será possível maximizar a produtividade da espécie e fortalecer sua cadeia produtiva de forma sustentável.
Metodologia
- Área do Estudo
A pesquisa foi realizada utilizando cascas de árvores de Mimosa tenuiflora, proveniente de um plantio experimental na Escola Agrícola de Jundiaí, no município de Macaíba, Rio Grande do Norte, Brasil (5°51’30’’ S e 35°21’14’’ W). De acordo com a classificação de Köppen, a região possui clima tropical chuvoso, transição entre os tipos As e BSw, com temperatura média de 27°C, sendo a máxima de 32°C e a mínima de 21°C, umidade relativa média anual de 76% e precipitação pluviométrica que varia entre 863,7 e 1.070,7 mm (IDEMA, 2013).
- Coleta do material
O monitoramento das árvores foi conduzido com base na idade dos plantios (3, 4, 5, 6, 7 e 8 anos), assegurando que todas as coletas fossem realizadas no mesmo período de cada ano. Para cada idade, foram coletadas amostras de casca de cinco árvores de cada espécie, aleatoriamente ao longo do tronco. Utilizando facões, as amostras foram retiradas de maneira homogênea em diferentes partes do fuste da planta, evitando o anelamento. A seleção das árvores baseou-se no vigor, priorizando indivíduos sem sinais de ataque de pragas ou doenças.
Em seguida, as cascas foram secas ao ar e moídas em moinho do tipo Willey, para obter um material de menor granulometria. Os materiais foram classificados e utilizados a porção que passou na peneira de 16 “mesh” (1,00 mm) e ficou retida na de 60 “mesh” (0,25 mm). A serragem obtida foi homogeneizada e o teor de umidade (base seca) determinado, para permitir os cálculos, em base seca, do teor de taninos presentes em cada amostra.
- Determinação de taninos
As substâncias tânicas contidas nos materiais foram extraídas em água destilada. Para as extrações, foram tomadas, de cada material, três amostras de 25 g de material seco. As amostras foram transferidas para balões de fundo chato com capacidade de 500 mL, aos quais foram adicionados 250 mL de água destilada (relação 1:10 p/v) e submetidas à fervura, sob refluxo, por duas horas. Cada amostra foi submetida a duas sequências de extrações, a fim de se retirar a máxima quantidade de extrativos presentes.
Após cada extração, o material foi passado em uma peneira de 150 “mesh” (0,105 mm) e em um tecido de flanela, para a retenção de partículas de serragem. O extrato obtido foi homogeneizado e filtrado em funil de vidro de porosidade dois. Em seguida, foi completada cada amostra para 500 mL com água destilada e, após, foram separadas três alíquotas de 50 mL retiradas de cada extrato. Duas alíquotas foram utilizadas para a determinação do teor de taninos condensados (TTC) e a outra foi evaporada em estufa a 103 ± 2 ºC por 48 horas, para a determinação da porcentagem de teor de sólidos totais (TST) (Equação 1).
TST(%)= Mi – Mf * 100 (1)
Em que:
TST = Teor de sólidos totais, em porcentagem;
Mi = Massa seca da amostra, em gramas;
Mf = Massa do extrato, após a secagem, em gramas.
Para a determinação do teor de taninos condensados (TTC), presente em cada amostra, foi empregado o método de Stiasny, descrito por Guangcheng et al. (1991). Para tanto, aos 50 mL do extrato bruto foram adicionados 4 mL de formaldeído (37% m/m) e 1 mL de ácido clorídrico concentrado. Cada mistura foi submetida à fervura sob refluxo por 30 minutos. Nestas condições, os taninos formam complexos insolúveis que podem ser separados por filtração simples. Para este caso, foi empregado filtro de papel posto em funil de Büchner de 10 cm de diâmetro e 4 cm de profundidade. O material retido no filtro foi seco em estufa a 103 ± 2 ºC por 24 horas, em seguida foi calculado o índice de Stiasny (Equação 2).
IS (%) = (M2 / M1) * 100 (2)
Em que:
I = Índice de Stiasny, em porcentagem;
M1 = Massa de sólidos em 50 mL de extrato, em gramas;
M2 = Massa do precipitado de taninos – formaldeído, em gramas.
A quantidade de taninos presente em cada amostra foi obtida ao multiplicar o índice de Stiasny pelo teor de sólidos totais (Equação 3).
TTC (%) = TST * IS / 100 (3)
Em que:
TTC = Teor de taninos condensados em porcentagem;
TST = Teor de sólidos totais (Equação 1);
IS = Índice de Stiasny (Equação 2).
Os dados foram analisados estatisticamente e as médias entre idades comparadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.
Resultados e Discussão
A análise dos dados obtidos para a Mimosa tenuiflora demonstrou variações significativas nos teores de sólidos totais (TST) e taninos condensados totais (TTC) ao longo das diferentes idades avaliadas, enquanto o índice de Stiasny se manteve constante (Tabela 1).
Idade da planta | TST (%) | IS (%) | TTC (%) |
3 anos | 26,41 a | 82,51 a | 22,04 a |
4 anos | 28,20 a | 75,58 a | 21,17 a |
5 anos | 27,60 a | 73,71 a | 22,43 a |
6 anos | 19,38 b | 84,09 a | 16,14 b |
7 anos | 16,25 c | 78,03 a | 12,92 c |
8 anos | 15,01 c | 79,13 a | 11,86 c |
Tabela 1. Teor de sólidos totais (TST), índice de Stiasny (IS), taninos totais condensados (TTC) e teores de não taninos (TNT) em função da idade das plantas de Mimosa tenuiflora cultivadas em Macaíba, RN.
*Médias seguidas pela mesma letra na coluna não diferem entre si pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade.
O Teor de Sólidos Totais (TST) manteve-se semelhante estatisticamente até a idade de 5 anos, com o valor médio de 27,40%. Aos 6 anos, a redução foi de 29,3%, em relação ao valor médio dos primeiros anos, e de 40,7% aos 7 e 45,2% aos 8 anos.
A diminuição do TST observada nas plantas de Mimosa tenuiflora a partir dos 6 anos pode ser justificada por alterações no metabolismo da planta ao longo do seu ciclo de vida. Nos primeiros anos, a planta investe fortemente na produção de metabólitos secundários e compostos estruturais, essenciais para o crescimento e defesa inicial. Com o avanço da idade, há uma mudança na alocação de recursos, priorizando processos reprodutivos e manutenção metabólica, o que pode levar à redução na concentração de sólidos acumulados na casca (Gillet; Gregorius, 2020). Além disso, o aumento da atividade respiratória e da degradação de compostos orgânicos ao longo do tempo contribui para a queda nos teores de TST observada nas fases mais avançadas da planta (Larowe; Van Cappellen, 2011).
O valor médio de 27,40% encontrado no presente estudo (para idades de até 5 anos) está próximo aos relatados por Azevedo et al. (2017) (30,8%) e Silva et al. (2022) (27,8%), indicando que a casca da Mimosa tenuiflora em idade jovem possui um teor considerável de sólidos solúveis, o que é favorável à extração de taninos. Braga et al. (2024) obtiveram um valor de 4,50% na madeira da Mimosa tenuiflora, e Almeida et al. (2024) relatam um valor de 7,56% nos galhos. Esses valores baixos mostram que a casca é, de fato, a parte mais rica em extrativos solúveis, especialmente taninos.
O TST é um parâmetro importante na análise de extratos vegetais, pois fornece uma medida quantitativa do total de substâncias dissolvidas na amostra. Esta quantificação serve como um indicativo preliminar da concentração de bioativos presentes no vegetal e auxilia na seleção de espécies promissoras para estudos mais aprofundados.
O Índice de Stiasny (IS) não apresentou diferenças significativas em função das idades avaliadas, mantendo-se estável, com valor médio de 78,84%. Valores próximos aos resultados encontrados por Silva et al. (2022) (84,4%) e Souza et al. (2024) (78.45%), reforçando a confiabilidade dos dados e indicando um bom nível de pureza dos taninos da casca da Mimosa tenuiflora. O valor de 37,74% em galhos, relatado por Almeida et al. (2024) é relativamente menor, o que reforça que diferentes partes da planta acumulam compostos com diferentes graus de reatividade, galhos, por exemplo, podem ter maior presença de açúcares e gomas, reduzindo esse índice.
O Índice de Stiasny (IS) é uma medida importante para avaliar a reatividade dos taninos presentes em extratos vegetais. Pois refere-se ao grau de pureza dos taninos condensados, quanto maior o valor, menores serão os outros compostos, como por exemplo, gomas, açúcares e hemiceluloses (Grangcheng; Yulun; Yazaki, 1991). A manutenção da capacidade de reação dos taninos com o formaldeído, expressa pelo Índice de Stiasny, possui implicações significativas para sua aplicação industrial, pois assegura a preservação de sua atividade reativa ao longo do tempo.
O Teor de Taninos Condensados (TTC) se manteve constante até os 5 anos, sendo o valor médio de 21,88%. Já aos 6 anos, houve uma redução expressiva de 26% em relação aos primeiros anos (Tabela 1).
Os valores obtidos no presente estudo para árvores entre 3 e 5 anos (21,88%) estão próximos aos 21,90% e 23,4% relatados por Azevedo et al. (2017) e Silva et al. (2022), respectivamente, confirmando a consistência dos resultados para a casca jovem da Mimosa tenuiflora.
A estabilidade no TTC facilita o planejamento e a padronização de processos industriais que dependem das propriedades desses compostos. A avaliação desse parâmetro é importante, pois influencia no momento ideal de colheita para obtenção desse composto (Panzella; Napolitano, 2022).
A quantificação de taninos, em função da idade da planta, é essencial para maximizar seu potencial em diversas aplicações, pois auxilia na identificação da janela de produção de taninos para a extração de alta qualidade e rendimento. Possibilitando a utilização mais racional dos recursos naturais, reduzindo desperdícios e otimizando o processo produtivo.
Considerações Finais
O teor de sólidos totais e taninos condensáveis na Mimosa tenuiflora varia conforme a idade da planta, sendo mais elevado até os 5 anos e reduzindo significativamente a partir dos 6 anos;
O Índice de Stiasny permanece constante independente da idade, para os anos avaliados;
A idade mais indicada no manejo e na exploração dos taninos de Mimosa tenuiflora para fins silviculturais é entre 3 a 5 anos.
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SOUZA, J. B.; AZEVÊDO, T. K. B.; PIMENTA, A. S.; GOMES, J. P. S.; MEZA FILHO, J. G. U.; SILVA, B. R. F. D. Seasonality of the bark tannins content of five-year-old Acacia mangium trees grown in northeast Brazil. Revista Árvore, v. 45, p. e4523, 2021.
ULANDARI, U.; MASRIANI, M.; SASRI, R.; ERSANDO, E. ULANDARI, Uci et al. Determination of Tannin Content in Matoa Plants (Pometia pinnata) Based on Variations in Leaf Age. Hydrogen: Jurnal Kependidikan Kimia, v. 12, n. 4, p. 915-928, 2024.
CAPÍTULO 5
PROPRIEDADES BIOATIVAS DA Mimosa tenuiflora (WILLD.) POIR.: AVANÇOS E OPORTUNIDADES NÃO EXPLORADAS
BIOACTIVE PROPERTIES OF Mimosa tenuiflora (WILLD.) POIR.: ADVANCES AND UNEXPLORED OPPORTUNITIES
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.05
Submetido em: 07/08/2025
Revisado em: 05/09/2025
Publicado em: 12/09/2025
João Victor da Costa Santos
Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Engenharia Florestal, Viçosa – MG
https://orcid.org/0000-0002-2240-3498
Camila Juliana Sampaio Pereira
Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Engenharia Florestal, Viçosa – MG
http://lattes.cnpq.br/6162106002669939
Camila da Silva Bounjour
Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Engenharia Florestal, Viçosa – MG
https://lattes.cnpq.br/8101379802088887
Gabriel Matos Diniz
Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Engenharia Florestal, Viçosa – MG
http://lattes.cnpq.br/8317420139717311
Luís Henrique Cabral Barral
Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Engenharia Florestal, Viçosa – MG
https://lattes.cnpq.br/6943185090589616
Kézia Ellen Souza Bonfim
Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Engenharia Florestal, Viçosa – MG
http://lattes.cnpq.br/0663917881237698
Maria Eduarda Grigolate Campos
Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Engenharia Florestal, Viçosa – MG
http://lattes.cnpq.br/4032045401496899
Taís Aparecida das Neves Custódio
Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Engenharia Florestal, Viçosa – MG
http://lattes.cnpq.br/4889425334369871
Ariane Mateus de Souza
Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Engenharia Florestal, Viçosa – MG
http://lattes.cnpq.br/6777336549820609
Tatiane Kelly Barbosa de Azevêdo
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0000-0001-6392-3548
João Gilberto Meza Ucella Filho
Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Engenharia Florestal, Viçosa – MG
https://orcid.org/0000-0001-9797-3332
Resumo
Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., também conhecida como Jurema preta, é uma espécie de Fabaceae conhecida pela imensurável capacidade de sintetizar uma gama de compostos químicos. Essa ampla variedade de metabólitos é atribuída ao seu potencial bioativo. Fato esse que impulsionou às investigações científicas com a espécie das últimas duas décadas, a tornando alvo em diferentes abordagens, desde ensaios biológicos in vitro à identificação de diferentes compostos por meio de técnicas analíticas. Apesar dos avanços, ainda há uma carência de estudos que categorizem de forma sistemática os métodos de extração química, os ensaios biológicos realizados e suas correlações com os principais usos terapêuticos relatados. Este trabalho apresenta uma revisão das propriedades bioativas de M. tenuiflora, com base em publicações científicas indexadas no banco de dados internacional Scopus, com o objetivo de oferecer uma visão abrangente da relação entre sua diversidade química e os potenciais usos medicinais. Os dados indicam que as pesquisas com a espécie se intensificaram a partir de 2020, com o Brasil se destacando como o país com maior número de estudos voltados às ações fitoterápicas da planta. Além disso, foi observado que a casca do caule se caracteriza como a estrutura mais investigada e os extratos aquosos, alcoólicos e metanólicos (incluindo frações) são os mais utilizados nos diferentes ensaios in vitro. Quanto às análises químicas, houve menções para técnicas preliminares e analíticas revelando diferentes classes de compostos bioativos e identificação alguns metabólitos. Majoritariamente, os compostos fenólicos foram os mais observados nestas análises. Portanto, observa-se que apesar do crescente interesse científico por M. tenuiflora, ainda há lacunas significativas quanto à padronização metodológica e à validação farmacológica de seus compostos
Palavras-chave: Jurema-preta. Popriedades bioativas. Fitoterápico.
.
Abstract:
Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., commonly known as Jurema preta, is a Fabaceae species recognized for its remarkable ability to synthesize a wide range of chemical compounds. This extensive diversity of metabolites is closely linked to its bioactive potential, which has driven increasing scientific interest over the past two decades. As a result, the species has been investigated through various approaches, ranging from in vitro biological assays to the identification of compounds using analytical techniques. Despite these advances, there is still a lack of studies that systematically categorize extraction methods, biological tests, and their correlations with the main reported therapeutic applications. This work presents a comprehensive review of the bioactive properties of M. tenuiflora, based on scientific publications indexed in the international Scopus database, aiming to provide an integrated perspective on the relationship between its chemical diversity and potential medicinal uses. The data indicate a marked increase in research activity on the species since 2020, with Brazil standing out as the country with the highest number of studies focused on its phytotherapeutic applications. Furthermore, the stem bark has been identified as the most extensively studied plant part, with aqueous, alcoholic, and methanolic extracts (including fractions) being the most frequently used in various in vitro assays. Regarding chemical analyses, both preliminary and advanced techniques have been reported, revealing multiple classes of bioactive compounds and identifying several key metabolites. Among these, phenolic compounds were the most commonly detected. Therefore, although scientific interest in M. tenuiflora continues to grow, significant gaps remain in the methodological standardization and pharmacological validation of its compounds.
Keywords: Mimosa tenuiflora. Bioactive Properties. Phytotherapeutic potential.
Introdução
A Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir., popularmente conhecida como jurema preta, é uma espécie de ocorrência em regiões com secas periódicas, como é o caso de ambientes de Cerrado e Caatinga (Dutra et al., 2020). Além do Brasil, ocorre também na Colômbia, El Salvador, Honduras, México e Venezuela (Dutra et al., 2020). No nordeste brasileiro, a espécie M. tenuiflora é utilizada pelos indígenas como ingrediente de uma bebida milagrosa (“vinho de jurema” ou “ajuca”) por conter alcaloides alucinógenos (Camargo, 2002). Morfologicamente é uma espécie típica de Fabaceae, com hábito arbóreo-arbustivo, tronco inclinado, copa irregular e aberta com acúleos esparsos (EMBRAPA, 2019). A casca apresenta uma cor escura, acinzentada, rugosa, fendida longitudinalmente e com a descamação, a entrecasca de aspecto vermelho-escuro é nitidamente observada (Maia, 2004; EMBRAPA, 2019).
Em todos os países de ocorrência, a madeira da M. tenuiflora é frequentemente utilizada para a produção de carvão mineral altamente calórico (Oliveira et al., 2006) e no manejo agroflorestal (EMBRAPA, 2019). No caso da arborização de pastagens, a espécie tem se destacado pelo fornecimento prolongado de forragem verde durante a estação seca, sendo possível estender esse período por meio do manejo com rebaixamento da planta (EMBRAPA, 2019).
A M. tenuiflora é uma espécie com ampla diversidade de metabólitos secundários em sua composição, com destaque aos taninos condensados, terpenos, flavonoides, alcaloides etc. (Bezerra et al., 2011; Meira et al. 2020). Essa diversidade é atribuída aos diferentes estudos com a espécie, incluindo abordagens farmacológicas, etnobotânicas e industriais. Um exemplo disso são os taninos extraídos de suas cascas que possuem potencial para indústria de couro e tanantes (Paes et al., 2006). Além de, apresentarem características necessárias para a produção de adesivo tanino formaldeído (Azevêdo et al., 2017). Essa importância torna M. tenuiflora uma espécie promissora para a indústria florestal, sendo indicada como produtora de taninos (Paes et al., 2006).
Outra vertente é a abordagem farmacológica frequentemente relacionada aos extratos de diferentes partes da M. tenuiflora, muito provavelmente devido a riqueza de metabólitos bioativos, cujos achados indicam a espécie como promissora na cicatrização de feridas (Nicolescu et al., 2021), antimicrobiano (Padilha et al. 2010), antiprotozoario (Bautista et al. 2011), antioxidante, citotóxico (Villarreal et al. 2022), anti-inflamatório (Cruz et al. 2016b) e antidepressivo (Duarte-Filho et al. 2022).
Apesar dos diversos relatos sobre o potencial de M. tenuiflora em múltiplas vertentes, ainda são necessários estudos que indiquem o estado da arte sobre quais são os métodos necessários para identificação, extração e purificação dos compostos bioativos de M. tenuiflora, relacionando com os principais usos e atividades biológicas envolvidas. Dessa forma, este compilado atualizado dos dados pré-clínicos encontrados em publicações científicas nos últimos anos visa oferecer uma visão abrangente e categórica da relação entre a diversidade metabólica de M. tenuiflora e seu potencial uso atribuído nestas pesquisas.
Esta revisão foi estruturada com o apoio de uma análise bibliométrica, conforme a abordagem de Ucella-Filho et al. (2024), seguindo etapas previamente definidas, que incluíram pesquisa em bases de dados, triagem e seleção de trabalhos, organização das informações em planilhas complementares, aplicação de estatística descritiva e, por fim, análise e discussão dos dados obtidos. O banco de dados Scopus foi utilizado como fonte principal, em razão de sua reconhecida confiabilidade e ampla cobertura da literatura científica (Ucella-Filho et al., 2024). Na plataforma, foram inseridos dois grupos de palavras-chave relacionadas à espécie Mimosa tenuiflora, considerando apenas artigos publicados entre 2008 e 2025. Os grupos de palavras incluíram termos como “Mimosa tenuiflora“, “jurema-preta”, “Mimosa hostilis“, combinados com palavras associadas a propriedades bioativas e terapêuticas, como “antioxidant”, “antimicrobial”, “antifungal”, “anticancer”, entre outros, limitando-se a artigos originais.
Após a coleta, foi realizada uma criteriosa seleção dos documentos científicos, com o objetivo de identificar informações relevantes sobre M. tenuiflora. Essa etapa envolveu uma avaliação minuciosa dos artigos, a fim de extrair dados específicos, como partes da planta utilizadas, métodos de extração, solventes aplicados e principais aplicações relatadas. Foram excluídos artigos de revisão e aqueles que não apresentavam aderência ao tema proposto. Os dados selecionados foram então submetidos à análise estatística descritiva. Complementarmente, a caracterização bibliométrica foi realizada com o auxílio do software VOSviewer (versão 1.6.15), conforme Van Eck & Waltman (2010), e do software R (R Core Team, 2021), por meio da função “biblioshiny”, disponível no pacote “bibliometrix” (Aria; Cuccurullo, 2017).
Panorama de pesquisas (Dados Bibliométricos)
A partir da inserção das palavras-chave de indexação na plataforma Scopus, foram identificados 75 artigos científicos. Após uma triagem criteriosa, considerando as informações metodológicas e priorizando estudos com foco no uso farmacológico da Mimosa tenuiflora, foram selecionados 32 documentos para compor a presente análise. Com base nesses artigos, foi realizada uma análise bibliométrica que permitiu visualizar o panorama anual de publicações científicas sobre a espécie e seu uso especificamente farmacológico (Figura 1). Como apresentado, é possível observar que não houve um aumento significativo no número de publicações relacionadas à Mimosa tenuiflora durante um intervalo de dez anos, compreendido entre 2008 e o final da última década. Contudo, observa-se um crescimento no número de publicações no período entre 2020 e 2024. Este aumento pode ser atribuído a diferentes fatores, incluindo o aprimoramento das metodologias analíticas e os avanços tecnológicos que hoje permitem uma caracterização mais detalhada das propriedades bioativas de compostos naturais (SAGANDYKOVA et al., 2018; NGUYEN et al., 2024; MUNGWARI et al., 2025). Além disso, esse interesse também coincide com o período pandêmico de COVID-19, que impulsionou a busca por novas alternativas terapêuticas e reforçou a importância de
produtos naturais com potencial antiviral (JAMAL, 2022; VELÁSQUEZ et al., 2024).
Figura 1. Panorama anual do número de publicações com o tema: uso farmacológico da espécie M. tenuiflora.
Outro fator relevante para esse aumento no número de estudos é a crescente preocupação mundial com o aumento das infecções causadas por microrganismos patogênicos e a crescente resistência destes aos antimicrobianos convencionais, um problema reconhecido como uma ameaça à saúde global pela Organização Mundial da Saúde (OMS) (NAGHAVI et al., 2024). A ineficácia progressiva de antibióticos tradicionais tem motivado a comunidade científica a explorar novas fontes de agentes antimicrobianos, como os compostos bioativos de plantas medicinais (MUTEEB et al., 2023; EL-SAADONY et al., 2025). Nesse contexto, M. tenuiflora, com seu amplo espectro de propriedades bioativas, tem despertado maior interesse, como evidenciado pelo recente crescimento de publicações. Apesar deste avanço, ainda são necessários estudos mais aprofundados que consolidem os achados mais recentes e esclareçam, de forma sistemática, quais microrganismos são comprovadamente sensíveis aos compostos extraídos desta espécie (FERREIRA e EVANGELISTA, 2021).
Sete países foram considerados como principais contribuintes em número de publicações, bem como desenvolvedores de pesquisas abordando o tema central. O maior número de publicações concentrou-se na América do Sul, com Argentina, apresentando menos de 5 artigos publicados e Brasil despontando, com 18 artigos publicados (Figura 2). O México foi o segundo país em número de publicações, seguido por países da Europa. O domínio da publicação de artigos é oriundo às américas por esta espécie está distribuída em áreas de florestas decíduas tropicais nas Américas, das regiões sudeste do México ao norte do Brasil e Venezuela, crescendo como vegetação oportunista secundária (BITENCOURT et al., 2014).
Figura 2. Número de publicações considerando os países que mais publicaram sobre o uso farmacológico da M. tenuiflora.
As espécies de Mimosa crescem em diversos habitats, como as savanas, florestas tropicais de várzea, florestas secas e arbustos de espinhos de áreas tropicais e subtropicais, médias de desertos subtropicais, florestas, zonas úmidas e pastagens, sendo comumente encontradas no Brasil, África, numerosas ilhas do Pacífico, América do Norte, Papua Nova Guiné, Austrália, México, Venezuela, Tailândia e Filipinas (RIZWAN et al., 2022). Dependendo da espécie, pode haver ocorrência em outros países como Ásia, como Paquistão, Japão, Indonésia, Índia, Bangladesh, Malásia, India, China, Sri Lanka, Taiwan e Camboja, enquanto certas espécies são comumente distribuídas de Cuba ao Texas, norte da América Central, Paraguai, Uruguai e Argentina (RIZWAN et al., 2022).
O Brasil também é o país que apresenta o maior número de publicações levando em consideração a instituição de ensino (Tabela 1), contabilizando 7 instituições de ensino em um total de 10 que mais publicam. Com exceção da Universidade de São Paulo, as demais instituições identificadas estão localizadas na região Nordeste do Brasil, onde se encontra o bioma Caatinga, habitat nativo da M. tenuiflora. A Caatinga é uma floresta tropical sazonalmente seca, caracterizada por clima semiárido, vegetação esparsa e períodos prolongados de seca, além de abrigar uma notável biodiversidade (SARTORI et al., 2024). A espécie M. tenuiflora pertence a um gênero amplamente distribuído em regiões tropicais e subtropicais, especialmente em grande parte da América Latina. Sua presença é predominante em diversas áreas fitogeográficas do Brasil, com destaque para os biomas Caatinga e Cerrado, abrangendo amplamente as regiões Norte e Nordeste do país (SILVA et al., 2024).
Tabela 1. Número de publicações de acordo com as instituições de ensino que mais publicaram sobre o uso farmacológico da espécie M. tenuiflora.
Instituição | Nº Publicações |
Universidade Federal de Pernambuco | 6 |
Universidade Federal Rural de Pernambuco | 5 |
Universidade de São Paulo | 5 |
Universidade Federal de Campina Grande | 4 |
Universidade Federal do Rio Grande do Norte | 4 |
Vietnam Academy of Science and Technology | 4 |
Vietnamese Academy of Science and Technology Institute of Chemistry | 4 |
Universidad Autónoma de Ciudad Juárez | 3 |
Universidade Federal da Paraíba | 3 |
Universidade Federal da Bahia | 3 |
Também é digno de nota por seu uso proeminente na medicina tradicional, conforme documentado em vários levantamentos etnofarmacológicos. Nestes estudos etnobotânicos realizados em diferentes biomas nas regiões Nordeste do Brasil, há relatos de indicações e uso popular de M. tenuiflora para diversos fins medicinais. (SILVA et al., 2024). Outros resultados bibliométricos, provenientes da análise das instituições de ensino, apontam os autores com maior número de publicações relacionadas à espécie (Figura 3). Destacam-se três autores com aproximadamente quatro publicações cada, dos quais dois são brasileiros, atuantes em universidades federais e com pesquisas voltadas à farmacologia. A Caatinga brasileira, além da Mimosa tenuiflora, abriga uma diversidade de espécies vegetais com potencial terapêutico, muitas ainda pouco exploradas (FERREIRA e EVANGELISTA, 2021), o que reforça a importância da continuidade de estudos voltados a plantas com propriedades bioativas.
Figura 3. Número de publicações de acordo com os autores que mais publicaram sobre o uso farmacológico da espécie M. tenuiflora.
A tabela 2 apresenta os dez artigos mais citados com foco nas propriedades farmacológicas da M. tenuiflora, e a análise desses dados revela que a principal aplicação investigada é a atividade antimicrobiana, especialmente antibacteriana e antifúngica. Essa ênfase pode ser justificada pelo contexto atual de emergência sanitária global, incluindo o aumento de infecções causadas por microrganismos patogênicos resistentes e pela ineficácia crescente de antimicrobianos convencionais, uma preocupação de saúde pública destacada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) (NAGHAVI et al., 2024; BERTAGNOLIO et al., 2024). Além disso, observa-se um segundo foco de destaque nos estudos relacionados à regeneração de tecidos e cicatrização de feridas, em especial com o uso de biomateriais à base de M. tenuiflora, como filmes de quitosana ou nanopartículas, o que destaca o interesse por suas aplicações em engenharia de tecidos e nanotecnologia.
Tabela 2. Lista de trabalhos sobre o uso farmacológico da espécie M. tenuiflora com maiores índices de citações
Autor | Título do artigo | Foco do estudo | N° de citações |
RODRÍGUEZ-LEÓN et al., 2019 | Synthesis of Gold Nanoparticles Using Mimosa tenuiflora Extract, Assessments of Cytotoxicity, Cellular Uptake, and Catalysis | Nanotecnologia, síntese de nanopartículas, aplicações terapêuticas | 115 |
ARAÚJO et al., 2018 | Antibacterial and antifungal activities of pyroligneous acid from wood of Eucalyptus urograndis and Mimosa tenuiflora | Atividade antimicrobiana (antibacteriana/antifúngica) | 85 |
FERREIRA- JÚNIOR et al., 2011 | Resilience and adaptation in the use of medicinal plants with suspected anti-inflammatory activity in the Brazilian Northeast | Uso etnobotânico / anti-inflamatório | 76 |
SOUZA, et al., 2008 | Jurema-Preta (Mimosa tenuiflora [Willd.] Poir.): A review of its traditional use, phytochemistry and pharmacology | Usos tradicionais e farmacologia | 59 |
FERREIRA et al., 2017a | New propolis type from north-east Brazil: chemical composition, antioxidant activity and botanical origin | Atividade antioxidante | 57 |
MARTÍNEZ-HIGUERA, et al., 2021 | Hydrogel with silver nanoparticles synthesized by Mimosa tenuiflora for second-degree burns treatment | Regeneração de pele, cicatrização de queimaduras | 47 |
CRUZ et al., 2016a | Antinoceptive and anti-inflammatory activities of the ethanolic extract, fractions and flavones isolated from Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir (Leguminosae) | Atividade anti-inflamatória e analgésica | 47 |
FERREIRA, et al., 2017b | Antioxidant Activity of a Geopropolis from Northeast Brazil: Chemical Characterization and Likely Botanical Origin | Atividade antioxidante | 31 |
BIASI-GARBIN, et al., 2016 | Antifungal potential of plant species from brazilian caatinga against dermatophytes | Atividade antifúngica | 30 |
VALENCIA-GÓMEZ, et al., 2016 | Chitosan/Mimosa tenuiflora films as potential cellular patch for skin regeneration | Regeneração de pele, engenharia de tecidos | 28 |
A Figura 4 apresenta um mapa de coocorrência de palavras-chave extraído da análise bibliométrica dos artigos sobre M. tenuiflora. O mapa foi construído utilizando o software VOSviewer, que permite a visualização de redes de termos relacionados com base na frequência e na coocorrência em títulos, resumos e palavras-chave dos documentos analisados. Neste tipo de mapa, cada nó (ou círculo) representa uma palavra-chave; quanto maior o tamanho do nó, maior é a frequência com que essa palavra aparece no conjunto de publicações. As linhas (arestas) entre os nós indicam a força de coocorrência entre os termos, de modo que, quanto mais forte e frequente a associação entre duas palavras em diferentes artigos, mais intensa e espessa é a linha que as conecta.
A cor dos nós pode indicar agrupamentos temáticos, dependendo da configuração aplicada. Ao observar a figura, é possível identificar que os termos frequentemente utilizados são “plant extract”, “mimosa tenuiflora extract”, “unclassified drug”, e “antimicrobial activity”. Estes termos refletem os principais eixos de pesquisa relacionados à espécie, indicando um forte interesse na extração de compostos bioativos e na avaliação de seus efeitos farmacológicos, especialmente como agentes antimicrobianos. De acordo com Ucella-Filho et al. (2024) as palavras-chaves indicadas em redes de interação indicam os principais focos de estudos sobre o tema principal.
Figura 4. Palavras-chave de indexação encontradas na busca por trabalho sobre o uso farmacológico da espécie M. tenuiflora
Outros termos importantes presentes na figura 5 incluem “antibacterial activity”, “antifungal activity”, “flavonoid”, “tannin derivative”, e “medicinal plant”, termos que destacam a planta como fonte de compostos fenólicos e derivados de taninos com propriedades terapêuticas. A presença de termos como “animal experiment”, “animal model”, “mouse”, e “human” também evidencia que parte dos estudos avança para ensaios pré-clínicos, que visam validar a eficácia dos extratos em modelos biológicos. Além disso, observa-se um agrupamento temático associado a atividades antimicrobianas específicas, como contra Staphylococcus aureus.
O interesse em Staphylococcus aureus é justificado pois esta bactéria está associada a infecções graves e de difícil tratamento, devido à crescente resistência aos antimicrobianos, como no caso das cepas MRSA (resistentes à meticilina) (ALGAMMAL et al., 2020). Em 2019, essa bactéria foi responsável por mais de 1 milhão de mortes no mundo, sendo um dos principais agentes causadores de infecções hospitalares e comunitárias (IKUTA et al., 2022). Em síntese, esta análise bibliométrica, em especial essa rede de interação das palavras-chave, confirma e complementa os resultados da análise dos artigos mais citados (Tabela 2): o principal foco das pesquisas envolvendo M. tenuiflora está na exploração de seus extratos vegetais como potenciais agentes antimicrobianos e anti-infecciosos, com crescente interesse na aplicação desses compostos em modelos experimentais relevantes para o desenvolvimento de terapias inovadoras.
Partes da Planta e seus Atributos
Foram observados usos potenciais de estruturas da raíz, caule, folhas e flores de M. tenuiflora. Mas, é expressiva a utilização da casca do caule da espécie nos estudos selecionados. Dentre os usos atribuídos para raíz, é mencionado o uso da casca para bebida ritualística (SIMÃO et al., 2020) e atividade mutagênica, antimutagênica e genotóxica (SILVA et al., 2013). Com relação às folhas, são também poucas menções atribuídas cujos relatos de extratos foliares apresentam atividade antibacteriana e antifúngica (SANTOS et al., 2025). Magalhães et al. (2018) faz menção ao uso de folhas e raízes no preparo de extratos etanólicos numa abordagem antinociceptiva, mas por apresentar pouco rendimento deu ênfase nas análises químicas e ensaios biológicos com os extratos etanólicos da casca de M. tenuiflora.
Outros trabalhos mencionam flores e brotos da planta como estruturas envolvidas no própolis de M. tenuiflora, cuja atividade antioxidante é frequentemente associada (FERREIRA et al., 2017a,b; SANTISTEBAN et al., 2019; LUYEN et al., 2024). Estudos recentes têm investigado o seu potencial para outras atividades biológicas, como atividade antiinflamatória, larvicida (LUYEN et al., 2024), imunomoduladora (SARTORI et al., 2024) e preventiva contra células cancerigenas (JUNG et al., 2024). A madeira é alvo de poucos estudos, sendo o principal constituinte na produção de ácido pirolenhoso com atividade antifúngica (ARAÚJO et al., 2018) e antibacteriana (ARAÚJO et al., 2018; SOARES et al., 2021). Um estudo faz menção ao cerne, parte da madeira, cujo extrato etanólico também apresenta atividade antibacteriana (BEZERRA et al., 2011).
Em se tratando da casca do caule, os inúmeros relatos mencionam várias atividades biológicas para os extratos e frações com diferentes solventes, além de outros produtos derivados. Os solventes mais utilizados são etanol (MACÊDO-COSTA et al., 2009; BEZERRA et al., 2011; BIASI-GARBIN et al., 2016; CRUZ et al., 2016a,b; SILVA et al., 2020; SILVA et al., 2021; VILARREAL et al., 2022), metanol (MACÊDO-COSTA et al., 2009; SILVA et al., 2013; CREPALDI et al., 2022; RODRÍGUEZ-GARZA et al., 2024) e água (BIASI-GARBIN et al., 2016; HERNANDEZ et al., 2021; HERNANDEZ et al., 2022; CREPALDI et al., 2022).
Nos estudos acima mencionados, os relatos investigam a atividade antimicrobiana, antioxidante, anti-inflamatória, citotóxica, antitumoral, anticoagulante, mutagênica, antimutagênica, genotóxica, hemolítica e anti hemolítica. Ainda, existem abordagens de fracionamento a partir de extratos etanólicos (MAGALHÃES et al., 2018) e aquosos (BITENCOURT et al., 2014). As frações com acetato de etila, a partir do extrato etanólico da casca, demonstraram maior atividade antioxidante e atóxica (MAGALHÃES et al., 2018). Já as frações com acetato de etila, n-butanol e diclorometano (a partir do extrato aquoso da casca) apresentaram o mesmo potencial anti-inflamatório em camundongos como resposta ao envenenamento por escorpião Tityus serrulatus (BITENCOURT et al., 2014).
Além dos trabalhos envolvendo extratos, outras abordagens exploram o uso de produtos derivados da casca de Mimosa tenuiflora. Entre essas aplicações, destaca-se o desenvolvimento de hidrogéis com atividade antibacteriana (MARTÍNEZ-HIGUERA et al., 2021), bem como a síntese de nanopartículas de ouro com propriedades citotóxicas relatadas (RODRÍGUEZ-LÉON et al., 2019). Também foram investigados filmes de quitosana combinados com a casca da M. tenuiflora, com foco em propriedades antibacterianas, cicatrizantes e regenerativas da pele (VALENCIA-GÓMEZ et al., 2016). Adicionalmente, o uso da planta na formulação de pomadas tem demonstrado eficácia no tratamento de dermatite de contato irritativo, com efeitos cicatrizantes e anti-inflamatórios comprovados (NICOLESCU et al., 2021).
Potencial Bioativo e Caracterização Química dos Produtos
Os relatos do uso e aplicações de extratos e frações com diferentes solventes bem como a própolis utilizando Mimosa tenuiflora denotam que a planta é promissora para abordagens farmacológicas, isso porque a espécie apresenta diferentes compostos com potencial bioativo ainda inexplorado. Essa diversidade de metabólitos pode variar dependendo do tipo de solvente extrativo ou da técnica empregada no estudo. Majoritariamente, os compostos fenólicos (antocianinas, flavonas, flavonóis, taninos, quinonas, xantonas) foram os mais observados nestas análises (Tabela 3). Mas também houve menções aos alcaloides, terpenoides, saponinas, esteroides, lactonas sesquiterpênicas, cumarinas etc.
Tabela 3. Propriedades bioativas atribuídas a espécie M. tenuiflora.
Parte da planta | Usos atribuídos | Produto | Classes de compostos | Compostos bioativos | Referência |
Casca da raiz | Bebida ritualística (ayahuasca) | – | Alcaloides | beta-carbolina e N, N-dimetiltriptamina | SIMÃO et al., 2020 |
Casca do caule | Atividade inibitória de toxinas de fungos em alimentos | Extrato aquoso | Compostos fenólicos | – | HERNANDEZ et al., 2022 |
Própolis | Atividade imunomoduladora | Extrato água: etanol | Terpenos e flavonoides | Santina, sakuranetina e kaempferida | SARTORI et al., 2024 |
Madeira | Atividade antimicrobiana (bactérias e fungos) | Ácido pirolenhoso | Furfural e fenois | – | ARAÚJO et al., 2018 |
Casca | Atividade antibacteriana | Hidrogel | – | – | MARTÍNEZ-HIGUERA et al., 2021 |
Casca | Atividade antibacteriana | Extrato etanólico | – | – | PADILHA et al., 2010 |
Folha | Atividade antimicrobiana (bactérias e fungos) | Extrato metanólico | – | – | SANTOS et al., 2025 |
Própolis | Atividade antioxidante | – | Flavonoide | Quercetina | FERREIRA et al., 2017ª |
Própolis | Atividade antioxidante | – | Flavonoides | Flavonóis/flavonas/flavononas | SANTISTEBAN et al., 2019 |
Folhas, galhos, cascas e raízes | Atividade antioxidante, anti-inflamatório e antinociceptivo | Frações hexano, diclorometano e acetato de etila a partir do extrato etanólico | Compostos fenólicos em todas as frações | Benzyloxyamina (composto majoritário) da fração com acetato de etila (casca)- maior atividade antioxidante e atóxica | MAGALHÃES et al., 2018 |
– | Atividade antibacteriano | Extratos aquosos e etanólicos | Compostos fenólicos | Apigenina (flavonoide), Ácido gálico (ácido fenólico), (+) – Catequina (flavonoide), Trímero de prodelphinidina C-GC-C (flavonoide), Trímero de prodelphinidina GC-C-C (flavonoide), Sinensetina (flavonoide), ácido 5–8′-desidrodiferúlico (ácido polifenólico) | VARGAS-SEGURA et al., 2020 |
Casca da raiz | Atividade mutagênica, antimutagênica e genotóxica | Extrato metanólico | – | – | SILVA et al., 2013 |
Casca | Atividade anti-inflamatórios e antinociceptivos | Extrato etanólico | Flavonoides | Sakuranetina | CRUZ et al., 2016ª |
Casca | Atividade neutralizante de envenamento | Extrato aquoso e frações (diclorometano, acetato de etila, n-butanol) | Flavonoides, terpenos e/ou esteroides. | – | BITENCOURT et al., 2014 |
Casca | Atividade citotóxica | Extrato hidroetanólico para síntese de nanopartículas de ouro | Taninos, saponinas | – | RODRÍGUEZ-LÉON et al., 2019 |
Casca | Atividade inibitória de toxinas de fungos em alimentos | Extrato aquoso | Taninos condensados | – | HERNANDEZ et al., 2021 |
Propolis | – | Extrato hidroetanólico de própolis | Flavonóis, flavanonas, flavanona prenilada | SON et al., 2022 | |
Casca | Atividade antimicrobiana e antioxidante | Extrato etanólico | Flavonoides e fenólicos | – | SILVA et al., 2021 |
Casca | Atividade antifúngica | Extrato aquoso, etanol+água, acetona/água | – | – | BIASI-GARBIN et al., 2016 |
Madeira | Atividade antibacteriana | Ácido pirolenhoso | – | – | SOARES et al., 2021 |
Casca | Atividade antibacteriana/atividade cicatrizante e regenerativa da pele | Filme de quitosana e casca de jurema | – | – | VALENCIA-GÓMEZ et al., 2016 |
Casca do caule | Atividade antimicrobiana | Extratos hexânico, metanólico e aquoso | – | – | CREPALDI et al., 2022 |
Casca | Atividade Antimicrobiana, Anticoagulante, Antioxidante, Citotóxica e Anti-inflamatória | Extrato etanólico | – | – | VILARREAL et al., 2022 |
Propolis | Atividade antioxidante, anti-inflamatória, larvicida (Aedes aegypti e Ae. Albopictus) e antibacteriana. | Extrato alcoólico de própolis verde | Flavonoides | quercetina 3-metil éter (1) e 3,3′- O -dimetilquercetina (2), e quatro flavanonas eriodictiol 5- O -metil éter (3), 5,4′-di-hidroxi-6,7-dimetoxiflavanona (4), licoflavanona (5) e macarangaflavanona B (6). | LUYEN et al., 2024 |
– | Atividade de regeneração cutânea e cicatrização de feridas | O-carboximetil quitosana com extrato aquoso | Arabinogalactanas, alcaloides, saponinas, flavonoides, quinonas e arabinogalactanas. | – | VALENCIA-GÓMEZ et al., 2020 |
Propolis | Atividade inibitória de células cancerígenas | Propolis verde | Flavonol | kaempferida | JUNG et al., 2024 |
Casca | Atividade cicatrizante e antiinflamatória da pele | Pomada/creme | – | galactana e galactomanana), manteiga de karité, glicerina e alfa-bisabol, | NICOLESCU et al., 2021 |
Casca/cerne/folha | Atividade antibacteriana | Extrato etanólico | Flavonoides, esteroides, antocianinas, antocianidinas, flavonóis, flavanonas, flavononóis, xantonas, triterpenoides. | – | BEZERRA et al., 2011 |
Casca | Atividade antibacteriana, citotóxica, atividade hemolítica, atividade antioxidante | Extrato etanólico | Taninos pirogálicos, Flavonas, Flavonois, Xantonas | – | SILVA et al., 2020 |
– | Uso popular da Atividade antiinflamatória | – | – | FERREIRA-JÚNIOR et al., 2011 | |
Casca | Atividade antibacteriana | Extrato com álcool e metanol | Taninos e flavonoides | – | MACÊDO-COSTA et al., 2009 |
Casca | Atividade antitumoral, antioxidante, hemolítica e antihemolítica | Extrato metanólico | Cumarinas, flavonoides, quinonas, lactonas sesquiterpênicas, esteroides e taninos | – | RODRÍGUEZ-GARZA et al., 2024 |
O potencial biológico associado à própolis de M. tenuiflora é atribuído à presença de lactonas sesquiterpênicas, flavonois, flavonas e flavononas. A atividade imunomoduladora foi relacionada aos compostos santina (lactona sesquiterpênica), sakuranetina (flavanona) e kaempferida (flavonol) (SARTORI et al., 2024). Já os flavonois quercetina 3-metil éter e 3,3′- O -dimetilquercetina e as flavanonas eriodictiol 5- O -metil éter, 5,4′-di-hidroxi-6,7-dimetoxiflavanona, licoflavanona e macarangaflavanona B apresentam atividade antioxidante, anti-inflamatória, larvicida (Aedes aegypti e Ae. albopictus) e antibacteriana (LUYEN et al., 2024). O composto kaempferida provavelmente possa também estar relacionado a atividade inibitória de células cancerígenas, desencadeando a apoptose e paraptose em células tumorais pancreáticas (JUNG et al., 2024).
Os extratos da casca, cuja relevância é notória nesta pesquisa, representam o tipo de abordagem que inclui o maior número de investigações para determinar sua natureza química. Tantas técnicas preliminares (Cromatografia em Camada Delgada- CCD, triagem fitoquímica), quanto técnicas analíticas (CG-MS, UHPLC-QTOF/MS, HPLC-DAD) foram mencionadas nos artigos avaliados. Uma análise química comparativa dos extratos etanólicos da casca, cerne e folhas de M. tenuiflora mostrou que os extratos da casca apresentam maior diversidade de metabólitos, incluindo os alcaloides, ausentes nos demais (BEZERRA et al., 2011), isso é perceptivo uma vez que a casca de M. tenuiflora foi a parte mais utilizadas em estudos (Figura 5). Os autores testaram o potencial antibacteriano e observaram que o extrato etanólico da casca do caule é mais eficaz quando comparado aos extratos das demais partes testadas. Porém, é importante ressaltar que os três extratos apresentaram uma grande diversidade de metabólitos (fenólicos, esteroides, antocianinas, antocianidinas, flavonóis, flavanonas, flavononóis, xantonas, triterpenoides) e tiveram sua eficácia comprovada na ação antibacteriana em diferentes linhagens de bactérias patogênicas (BEZERRA et al., 2011).
Figura 5. Porcentagem das partes utilizadas da espécie M. tenuiflora para usos farmacológicos.
O mesmo aconteceu no estudo de Magalhães et al. (2018), cujos autores compararam o potencial antinociceptivo orofacial, por meio de análises antioxidantes, anti-inflamatórias e citotóxicas de extratos de várias partes da planta. O extrato etanólico da casca foi o mais promissor. Esse extrato foi fracionado e a fração com acetato de etila apresentou maior potencial antioxidante e atóxico. Análises com GC-MS revelaram a presença majoritária de Benzyloxyamina, composto provavelmente relacionado a esse potencial (MAGALHÃES et al., 2018).
A atividade antinociceptiva foi comprovada em outro estudo, reafirmando o potencial antiinflamatório de M. tenuiflora (CRUZ et al., 2016a). Os autores realizaram estudos in vivo com camundongos e demonstraram que os extratos etanólicos da casca, bem como frações solúveis (hexano, butanol, acetato de etila e diclorometano) apresentam efeitos antinociceptivos na formação de edema induzido por formalina. Um flavonoide isolado (Sakuranetina) de M. tenuiflora também foi testado e apresentou um bloqueio da nocicepção (CRUZ et al., 2016a).
Já os extratos metanólicos da casca de M. tenuiflora, com presença de cumarinas, flavonoides, quinonas, lactonas sesquiterpênicas, esteroides e taninos, inibiram significativamente o crescimento de células L5178Y-R do linfoma murino e apresentaram um efeito antioxidante (CI50 = 2,86 µg/mL) maior do que o do ácido ascórbico, controle para teste de DPPH (RODRÍGUEZ-GARZA et al., 2024). Isso torna a espécie uma candidata promissora para estudos posteriores contra outras linhagens celulares e para purificação biodirecionada de seus componentes mais ativos (RODRÍGUEZ-GARZA et al., 2024).
Em um estudo comparando a atividade antioxidante, hemolítica e antimicrobiana dos extratos etanólicos de três espécies do gênero Mimosa, foi possível observar que os compostos detectados por HPLC (taninos pirogálicos, flavonas, flavonois e xantonas) possam ser os agentes responsáveis pelo melhor desempenho das atividades antimicrobiana (Staphylococcus aureus, Escherichia coli, Trichophyton interdigitale e Candida albicans) e antioxidante de Mimosa tenuiflora, com baixa capacidade hemolítica (SILVA et al., 2020).
A atividade bactericida também foi testada contra Streptococcus mutans e as análises dos extratos com água quente por HPLC/MS foram importantes para elencar os compostos que provavelmente possam estar relacionados com essa atividade biológica (VARGAS-SEGURA et al., 2020). Estes compostos são a Apigenina (flavonoide), Ácido gálico (ácido fenólico), (+) – Catequina (flavonoide), Trímero de prodelphinidina C-GC-C (flavonoide), Trímero de prodelphinidina GC-C-C (flavonoide), Sinensetina (flavonoide) e ácido 5–8′-desidrodiferúlico (ácido polifenólico) (VARGAS-SEGURA et al., 2020).
A partir do levantamento, observamos que o único estudo que investigou a composição química por UHPLC-QTOF/MS tinha como intuito determinar a natureza química, por decocção, das espécies utilizadas na bebiba ritualística ayahuasca. Entre elas, Mimosa tenuiflora, que também apresentou os alcaloides beta-carbolina e N, N-dimetiltriptamina (SIMÃO et al., 2020). Os autores denotam que o efeito de curto prazo dessa bebida no sistema nervoso central ainda permanece em grande parte desconhecido. Mas, pode ser atribuído ao sinergismo de moléculas encontradas na mistura das plantas.
A atividade antimicrobiana contra microrganismos Gram-positivos e Gram-negativos está atribuída à atuação sinérgica entre taninos e flavonoides. Esses compostos interferem na integridade da membrana celular bacteriana e inibem enzimas associadas ao metabolismo microbiano, resultando em efeito bactericida significativo (LEITE et al., 2015; FERREIRA & EVANGELISTA, 2021). Além disso, extratos obtidos da casca apresentaram efeitos cicatrizantes notáveis, especialmente em modelos de úlceras e feridas cutâneas. Essa atividade está relacionada à modulação da resposta inflamatória local, ao estímulo da proliferação de fibroblastos e à aceleração da deposição de matriz extracelular , efeitos provavelmente mediados por triterpenos e compostos polifenólicos presentes na planta (RODRIGUES, 2017).
Em suma, a grande maioria dos artigos que avaliaram o potencial bioativo de Mimosa tenuiflora sugere que mais investigações sejam realizadas com o intuito de identificar o princípio ativo e investigar os mecanismos de ação responsáveis por essas atividades biológicas, além de avaliar a biossegurança dos compostos/classes de compostos identificados nestes extratos.
Considerações Finais
As evidências científicas compiladas na presente revisão demonstram que a Mimosa tenuiflora é uma espécie com potencial biotecnológico e farmacológico, destacando-se pela riqueza e diversidade de compostos bioativos presentes, sobretudo em sua casca. As atividades biológicas atribuídas a seus extratos e frações, como ações antimicrobiana, antioxidante, anti-inflamatória, cicatrizante e até antitumoral, reforça seu potencial para o desenvolvimento de novos fitoterápicos e medicamentos à base de princípios naturais. A presença de metabólitos secundários como flavonoides, taninos, alcaloides e triterpenos oferece perspectivas para a exploração terapêutica e tecnológica da espécie que já possui uso medicinal na cultura popular.
Além dos benefícios farmacológicos, a aplicação industrial sustentável da M. tenuiflora, como fonte de compostos químicos, destaca sua versatilidade de uso e seu valor econômico, especialmente em regiões semiáridas onde a planta ocorre naturalmente. A possibilidade de utilizar esses compostos naturais no desenvolvimento de medicamentos mais acessíveis, com menor custo de produção e menor risco de efeitos colaterais em comparação com fármacos sintéticos, pode ser uma possível estratégia para ampliar o acesso à saúde em comunidades vulneráveis, principalmente em países subdesenvolvidos e pobres. Tais iniciativas estão alinhadas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente os ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura) e ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis).
Diante do avanço das pesquisas, é importante destacar que os estudos futuros devem priorizar a padronização metodológica na extração, caracterização química e avaliação biológica dos extratos de M. tenuiflora, bem como a investigação de seus mecanismos de ação e segurança toxicológica. A resposta a essas lacunas podem facilitar seu uso clínico e fomentar a formulação de produtos fitoterápicos eficazes, seguros e economicamente viáveis, promovendo uma inovação farmacêutica alinhada à sustentabilidade e à equidade social.
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CAPÍTULO 6
POTENCIAL DO EXTRATO PIROLENHOSO DE Mimosa tenuiflora COMO ANTISSÉPTICO PARA APLICAÇÕES NA ÁREA VETERINÁRIA
POTENTIAL OF THE PYROLIGNEOUS EXTRACT OF Mimosa tenuiflora AS AN ANTISEPTIC FOR VETERINARY APPLICATION
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.06
Submetido em: 07/08/2025
Revisado em: 05/09/2025
Publicado em: 12/09/2025
Francisco Marlon Carneiro Feijó
Universidade Federal Rural do Semiárido, Departamento de Ciências Agronômicas e Florestais, Mossoró – RN
https://orcid.org/0000-0002-7941-8949
Mara Gabriela Rubens
Universidade Federal Rural do Semiárido, Departamento de Ciências Animais,
Mossoró – RN
https://orcid.org/0009-0003-8868-6624
Isadora Karoline de Melo
Universidade Federal Rural do Semiárido, Departamento de Ciências Animais,
Mossoró – RN
https://orcid.org/0000-0001-6729-2691
Grazielly Dantas da Costa
Universidade Federal Rural do Semiárido, Departamento de Ciências Animais,
Mossoró – RN
https://orcid.org/0009-0002-8415-6880
Emanuel Bezerra Soares
Universidade Federal Rural do Semiárido, Departamento de Ciências Animais, Mossoró – RN
https://orcid.org/0009-0009-3696-1624
Nilza Dutra Alves
Universidade Federal Rural do Semiárido, Departamento de Ciências Agronômicas e Florestais, Mossoró – RN
https://orcid.org/0000-0002-2332-9293
Alexandra Fernandes Pereira
Universidade Federal Rural do Semiárido, Departamento de Ciências Agronômicas e Florestais, Mossoró – RN
https://orcid.org/0000-0003-2137-854X
Caio Sergio Santos
Universidade Federal Rural do Semiárido, Departamento de Ciências Agronômicas e Florestais, Mossoró – RN
https://orcid.org/0000-0001-9133-1857
Luis Eduardo de Oliveira Magalhães
Universidade Federal Rural do Semiárido, Departamento de Ciências Animais, Mossoró – RN
https://orcid.org/0009-0008-4755-4939
Alexandre Santos Pimenta
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias, Macaíba- RN
https://orcid.org/0000-0002-2134-2080
Resumo
As bactérias patogênicas têm apresentado resistência bacteriana aos antissépticos convencionais utilizados em animais, necessitando de alternativas para inibição de desses patógenos. Uma dessas alternativas são os fitoterápicos. Assim, foi demonstrado que o uso de extrato pirolenhoso de Mimosa tenuiflora pode ser utilizado, substituindo o iodo ou clorexidina. Essa alternativa está baseada em aspectos como baixa citotoxicidade e bons resultados quanto avaliado in vitro e in vivo. O uso do extrato pirolenhoso de M. tenuiflora mantém a morfologia celular, além de uma boa viabilidade celular e uma taxa de metabolismo adequada. Na análise da eficiência in vitro, foi observado uma inibição de bactérias como Escherichia coli, Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus a uma concentração de 20%. E quanto à análise em caprinos e felinos, foi observado uma inibição das bactérias em glândula mamária de cabras leiteiras e em feridas cirúrgicas de felinos. Um estudo sobre os efeitos do extrato pirolenhoso no leite de matrizes caprinas não produziu alteração em pH, condutividade, teor de gordura, acidez e ponto de congelamento
Palavras-chave: Jurema-preta. Antissépticos. Citotoxicidade.
Abstract
Pathogenic bacteria have shown resistance to conventional antiseptics used in animals, highlighting the need for alternative methods to inhibit these pathogens. One such alternative is the use of herbal medicines. In this context, it has been demonstrated that pyroligneous extract from Mimosa tenuiflora can be used as a substitute for iodine or chlorhexidine. This alternative is supported by factors such as low cytotoxicity and favorable results in both in vitro and in vivo evaluations. The use of M. tenuiflora pyroligneous extract preserves cell morphology, ensures good cell viability, and maintains an adequate metabolic rate. In the in vitro efficiency analysis, bacterial inhibition was observed for Escherichia coli, Pseudomonas aeruginosa, and Staphylococcus aureus at a 20% concentration. Regarding the in vivo tests in goats and felines, bacterial inhibition was noted in the mammary glands of dairy goats and in surgical wounds of cats. A study evaluating the effects of the pyroligneous extract on the milk of lactating goats showed no changes in pH, conductivity, fat content, acidity, or freezing poin.
Keywords: Mimosa tenuiflora. Antiseptics. Cytotoxicity.
Introdução
O Brasil é detentor de uma das maiores biodiversidades, cerca de 17,5% das espécies do planeta, estão em seu território, além das maiores reservas de biomas tropicais, dentre quais estão inseridas as plantas consideradas como medicinais, sendo qualquer espécie, ou parte dela, que administrada ao ser humano ou animal, de qualquer forma ou por qualquer via, exerça alguma função terapêutica, a qual pode-se obter tanto efeitos benéficos quanto maléficos (Melo Batista; Oliveira, 2014).
O uso direto ou indireto de plantas na resolução de enfermidades é uma ferramenta tão antiga quanto o próprio desenvolvimento do ser humano como espécie, onde a busca dos recursos no ambiente tornara-se – por vezes a única – solução para a cura de ferimentos e doenças em comunidades e grupos étnicos (Marmitt et al., 2015). Onde as plantas apresentam elementos que compõem a biodiversidade, consideradas as únicas opções para o desenvolvimento de fitoterápicos, estão sendo empregadas desde tempos remotos, onde seu emprego desenvolveu-se dando origem à Medicina Tradicional (Rocha et al., 2015).
Um fator que se deve ressaltar é o exponencial ritmo de crescimento populacional associado às promoções de políticas públicas de conservação e preservação do meio ambiente. Esse argumento já destaca a necessidade de buscas por novas alternativas produtivas que sejam mais sustentáveis. Tais alternativas devem unir a eficiência dos processos tecnológicos e resguardar respeito pelo meio ambiente, maximizando o rendimento dos resíduos produzidos durante suas atividades e da mesma forma diminuindo o descarte de poluentes nocivos à atmosfera e ao meio ambiente (Medeiros, 2018).
Os produtos terapêuticos alternativos estão sendo apresentados a todo momento no mercado, sendo um deste o extrato pirolenhoso, oriundo do carvão vegetal. O Brasil um dos únicos países no mundo, produtor de carvão vegetal de forma sustentável (Canal et al., 2016), destacando-se com uma produtividade total de aproximadamente 6 milhões de toneladas em 2013, expectativa de produção média estipulada em 9 milhões de toneladas para o ano de 2020 (Brasil, 2015). Contudo, ao que diz respeito aos maiores produtores, a China ainda é o país com maior nível de desenvolvimento de produtos e tecnologias patenteadas, reflexo do crescente interesse em pesquisas nessa área (Santos et al., 2015), mostrando dessa forma, o quanto o Brasil necessita desenvolver-se de forma tecnológica quanto a novos antissépticos.
O extrato pirolenhoso trata-se de uma solução ácida aquosa, de alta complexidade química. Segundo Wu et al. (2015) em sua composição há mais de 200 compostos orgânicos já identificados, grande quantidade de ácido acético e a presença de diversos compostos químicos como ácidos, álcoois, cetonas, fenóis, aldeídos e vários outros derivados da lignina (Schnitzer et al., 2015). O extrato pirolenhoso de M. tenuiflora foi produzido e apresenta uma ação antibacteriana, podendo ser utilizada como alternativa antisséptica em medicina veterinária.
Os antissépticos alternativos podem influenciar na interação ambiente – humano animal. Dessa forma, a realização de pesquisas que possam verificar essa interação é necessária. Essa pode ter efeitos repercutindo na saúde dos indivíduos, famílias e comunidades, dependendo de fatores como custos, entre outros. Nesse contexto, o mercado brasileiro de animais de companhia detém uma população de 52,2 milhões de cães, sem incluir os gatos, tratando-se de um dos setores que mais vem crescendo nos últimos anos, mesmo em meio à crise, o setor continuou em expansão, movimentando cerca de R$20 bilhões no Brasil. Essa movimentação colocou o país como o segundo maior mercado de produtos pet do mundo, com 6,4% de participação, atrás apenas dos Estados Unidos, impulsionado pela humanização dos animais (Bueno, 2020), podendo-se vislumbrar a possibilidade de antissépticos alternativos em comercializados em farmácias veterinárias.
Os antissépticos alternativos também podem auxiliar nas medidas sanitárias utilizadas para prevenir e controlar as zoonoses e outros riscos colocados pelos animais de companhia para os seres humanos. Já que o controle populacional está relacionado a fatores como o grau de desenvolvimento em uma dada nação, a urbanização, estratificação social e cultural, socioeconômicos, religiosos e outros fatores (Pereira et al., 2018), pois esses antissépticos podem ser utilizados em feridas pós cirúrgicas de animais submetidos ao controle populacional. Para o manejo da população canina e felina, um conjunto de estratégias bem desenvolvidas é necessário para evitar a superpopulação e o abandono de animais. Essas estratégias são baseadas na perspectiva de promover a saúde comunitária, humana e bem-estar animal e manutenção do equilíbrio ambiental (Gallo et al., 2012).
A utilização de produtos medicinais de origem natural tem se tornado tendência, e surge como uma alternativa eficiente, segura e de baixo custo. Isso se deve principalmente à grande procura por remédios fitoterápicos, claro, vinculado a fatores socioeconômicos, pois os custos são menores, de manutenção das tradições culturais, de grande disponibilidade para população de baixa renda e a busca de um medicamento com menor efeito colateral.
A tecnologia de produtos alternativos também pode ser utilizada em animais de produção. O uso de soluções antimicrobianas no pré e pós-dipping em matrizes caprinas são práticas agropecuárias necessárias para assegurar um produto de qualidade, e na ausência pode ocorrer à contaminação do leite e o aparecimento de patologias, como a mastite. Ademais, aproximadamente 90% do rebanho de caprinos no país encontra-se na região Nordeste, sendo uma cultura adequada para pequenos produtores o qual contribui com a renda seja pela venda do animal ou a comercialização de seus produtos como a carne, o leite e o couro (Silva; Guimarães; Oliveira, 2012). Assim, o estudo para investigar o potencial antimicrobiano de extratos obtidos de plantas nativas e cultivadas atreladas a práticas de pequenos produtores e produtores familiares de caprinos de uma região pertencente ao nordeste brasileiro é uma necessidade.
Assim, faremos a apresentação de ações realizadas com o uso de M. tenuiflora como alternativa a prevenção de agentes microbianos causadores de problemas em animais de companhia e de produção.
Desenvolvimento
Antissépticos
A prevenção de enfermidades é destacada pelo uso de antissépticos em diversas ações utilizadas em animais (Ribas; Santos; Botelho, 2020) como uso de iodo no pré-dipping em vacas (Silva et al., 2023), ou ainda uso de clorexidina em abdômen de pequenos animais (Feijó et al., 2022). Esses dois antissépticos são frequentemente utilizados como ação profilática, mas foi verificado um grau de resistência a antissépticos. Assim, o estudo de antissépticos alternativos é observado (Soares et al., 2021, Gama et al., 2024) em animais.
Esse argumento já destaca a necessidade de buscas por novas alternativas produtivas que sejam mais sustentáveis. Tais alternativas devem unir a eficiência dos processos tecnológicos e resguardar respeito pelo meio ambiente, maximizando o rendimento dos resíduos produzidos durante suas atividades e da mesma forma diminuindo o descarte de poluentes nocivos à atmosfera e ao meio ambiente (Medeiros, 2018).
A Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. apresenta madeira densa e pesada, com elevada resistência mecânica e durabilidade natural, sendo sua principal utilização na produção de lenha e carvão (Gariglio et al., 2010). A queima da madeira tem um rendimento gravimétrico de carvão próximo de 40%, onde o teor de carbono fixo ultrapassa os 70%, o poder calorífico de 6.87 cal.g-1, os quais juntamente com a densidade aparente do carvão de 0,51 g/cm³, indicam que a madeira de M. tenuiflora é recomendada para a produção de carvão (Oliveira et al., 2006; Paes et al., 2012).
O alto valor energético, devido principalmente ao elevado poder calorífico, permite que os fornos atinjam elevadas temperaturas em um curto período de tempo (Alvarez et al., 2007). Quando levado em consideração as propriedades da madeira e do carvão pode ser observado que essa espécie apresenta um potencial energético superior ao carvão obtido do Eucalyptus grandis, tendo potencial para a produção de carvão e geração de energia.
A casca da M. tenuiflora possui elevados teores de taninos, garantindo grande potencialidade em função da quantidade de taninos associada à disponibilidade da planta no bioma Caatinga (Calegari et al, 2016). O extrato de taninos da M. tenuiflora apresentando atividade antimicrobiana, com função fungicida e bactericida, sendo utilizado com eficácia no tratamento de ferimentos em rebanhos caprinos e ovinos (Gonçalves et al., 2005) e como antisséptico em feridas cirúrgicas de felinos (Feijó et al., 2022).
Além disso, os adesivos produzidos a partir desses taninos obtiveram teores de sólidos semelhantes aos da acácia negra, com maior viscosidade, portanto sendo recomendado a realização de processos químicos para que possa utilizá-los na tecnologia da madeira (Azevedo et al., 2015). Dessa forma, esta espécie possui potencial para ser utilizada comercialmente, entretanto, se fazem necessárias pesquisas a fim de melhorar características funcionais e aprimoramento de técnicas de implantação, além de uma análise de viabilidade econômica para utilização no setor industrial (Lima et al., 2014).
Um antisséptico é considerado eficaz quando existe a comprovação de 70% de morte microbiana em comparação ao controle positivo (Morão et al., 2015). Essa eficiência pode sofrer influências de alguns fatores: carga microbiana, características dos microrganismos, concentração, tempo de exposição, presença de biofilmes, temperatura e pH (Campos; Valente; Avancini, 2016; Avancini; Both, 2017). E ainda, para sanitizantes usados no pós-dipping o tempo de ação deve ser de 1 a 2 horas, tempo necessário para fechar o esfíncter do teto (Silva et al., 2015; SÁ et al., 2018).
O uso de antisséptico alternativo é justificado ao fato dos antimicrobianos convencionais estarem associados ao fator de custo e a crescente taxa de resistência bacteriana – Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Proteus mirabilis, outras bactérias da família Enterobacteriaceaee também em bactérias como Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter baumannii a antimicrobianos convencionais preocupa profissionais de diversas áreas de atuação, sendo um problema de saúde pública que atinge toda a população do globo, uma vez que eleva os custos com os tratamentos, bem como causa um número maior de mortalidade por infecções, tornando-se um desafio para o manejo clínico (Oliveira, 2008; Matias et al., 2010).
A resistência é um grande problema à terapia antimicrobiana, sendo necessária a busca de novos compostos com fins terapêuticos que sejam mais eficientes para o tratamento de infecções bacterianas (Silva et al., 2007), como observado em Staphylococcus aureus portadores do elemento genético móvel chamado SCCmec que possui o gene mecA, confere resistência a meticilina (Dzidic; Suskovic; Kos, 2007).
Citotoxicidade da Mimosa tenuiflora para uso em animais
Os ensaios de citotoxicidade representam uma etapa essencial na avaliação da segurança e eficácia de novos compostos bioativos, especialmente aqueles com potencial uso terapêutico ou antimicrobiano, como é o caso dos extratos à base de Mimosa tenuiflora. Tais ensaios são fundamentais para determinar os efeitos adversos que essas substâncias podem exercer sobre células animais antes de serem aplicadas em organismos vivos. Três abordagens experimentais amplamente utilizadas fornecem subsídios robustos para a caracterização da toxicidade celular:
(i) a análise morfológica das células,
(ii) a avaliação da integridade da membrana plasmática,
(iii) e o ensaio de viabilidade metabólica, com destaque para o método do MTT.
De modo geral, os estudos de citotoxicidade utilizam linhagens celulares estabelecidas, que são cultivadas em meio de cultivo DMEM (Dulbecco’s Modified Eagle Medium), suplementado com 10% de soro fetal bovino (SFB), responsável por fornecer fatores de crescimento e nutrientes essenciais, e 2% de uma solução de antibióticos-antimicóticos, com o intuito de prevenir contaminações microbianas. A incubação celular é conduzida em condições controladas de temperatura (entre 37 e 38,5 °C) e uma atmosfera de 5 a 6,5% de CO₂, que mimetiza o ambiente fisiológico. Para os ensaios, as células são cultivadas até atingirem cerca de 90% de confluência, e utilizadas em concentrações padronizadas, como 5,0 × 10⁴ células/mL.
A análise morfológica constitui a primeira abordagem, sendo realizada com o auxílio de um microscópio óptico invertido. Nessa etapa, observam-se parâmetros como alterações na forma celular, retração de prolongamentos citoplasmáticos, desprendimento da monocamada e alterações na adesão ao substrato, que são indicadores sensíveis de estresse celular ou toxicidade.
Complementarmente, o ensaio de integridade de membrana é realizado com o uso do corante azul de tripan a 0,4%, um método clássico para distinguir células viáveis (que excluem o corante) de células mortas ou com membranas comprometidas (que absorvem o corante e se tornam azuladas). Apesar de sua ampla aplicação e simplicidade, esse ensaio não é suficiente por si só para atestar a segurança de um composto, pois não detecta alterações mais sutis ou mecanismos de morte celular como a apoptose.
Dessa forma, um dos métodos mais informativos é o ensaio metabólico com o sal MTT (3-(4,5-dimetiltiazol-2-il)-2,5-difenil tetrazólio bromida). Esse ensaio baseia-se na capacidade de células metabolicamente ativas de reduzir o sal amarelo MTT em cristais de formazan, de coloração roxa, por meio da ação de enzimas mitocondriais. Apenas células viáveis apresentam tal capacidade, enquanto células mortas ou metabolicamente comprometidas não conseguem realizar essa conversão. Após a incubação com o MTT, os cristais formados são solubilizados com DMSO, e a intensidade da coloração púrpura é quantificada por espectrofotometria, geralmente entre 540–570 nm. Os resultados permitem a determinação da viabilidade celular percentual, fornecendo uma estimativa da toxicidade da substância testada.
Estudos recentes têm utilizado essa combinação de técnicas — análise morfológica, exclusão por azul de tripano e ensaio MTT — para investigar a citotoxicidade de extratos pirolenhosos, incluindo os derivados de M. tenuiflora. Segundo Campos (2018), esses extratos demonstraram baixa toxicidade em todos os parâmetros avaliados, especialmente quando comparados a agentes antissépticos convencionais. Soares et al. (2021), por exemplo, demonstraram que o extrato pirolenhoso de M. tenuiflora, quando aplicado sobre células somáticas, apresentou parâmetros de viabilidade celular, morfologia e atividade metabólica similares ao iodo a 2% (P < 0,05), indicando seu potencial como alternativa segura para uso como antisséptico no manejo pós-dipping de glândulas mamárias em caprinos.
Em outro estudo, Feijó et al. (2022) avaliaram o mesmo extrato em células epiteliais de gatas, constatando um baixo impacto sobre a atividade mitocondrial, o que reforça seu perfil de segurança. Além disso, os autores relataram que o extrato apresentou atividade antimicrobiana comparável ao iodo a 2%, sugerindo aplicações promissoras no tratamento de feridas cirúrgicas em pequenos animais.
Potencial Antimicrobiano in vitro da Mimosa tenuiflora
Soares et al., (2021) observaram uma inibição para Escherichia coli e Pseudomonas aeruginosa a uma concentração de 20% e para Staphylococcus aureus em concentrações abaixo de 20%. Essa maior sensibilidade para S. aureus é provavelmente devido à lise dos componentes da membrana na célula bacteriana gram-positiva que são causados pelos efeitos sinérgicos dos compostos do extrato pirolenhoso (Mattos et al. 2019). Isso é diferente das observações de Jankowsky et al. (2018), que descobriram que, isoladamente, a fração metabólica do PA do bambu (Dendrocalamus asper) era ineficiente para a inibição de S. aureus. Esta fração metabólica inclui principalmente compostos fenólicos (guaiacol, vanilina), cetonas, aldeídos e lactonas.
Feijó et al., (2022) utilizaram extrato pirolenhoso de M. tenuiflora e observaram os seguintes resultados. Com os animais tratados com extrato pirolenhoso de M. tenuiflora, 4,5 × 103 e 7,4 × 102 células bacteriana nos dias 0 e 7, respectivamente, com uma redução de 82%. Além disso, aqueles tratados com clorexidina apresentaram 2,3 × 104 e 4,0 x 102 células bacterianas nos dias 0 e 7, respectivamente, com uma redução de 83%. Os dados foram significativamente diferentes (p < 0,05) ao comparar os dados de M. teinuflora e clorexidina. Tanto a clorexidina quanto a M. tenuiflora diminuíram a contagem de células bacterianas. Nesse experimento, o extrato de M. tenuiflora apresentou potencial inibitório para bactérias como Staphylococcus aureus, Streptococcus sp., Aerococcus sp., Escherichia coli, Pseudomonas aeruginosa.
Segundo Grewal et al. (2018), ácidos orgânicos que compõem o extrato pirolenhoso de M. tenuiflora que causaram halos de inibição em P. aeruginosa. E esses dados são promissores, visto que Pseudomonas sp. é resistente a diversos antimicrobianos, incluindo aminoglicosídeos, quinolonas e β-lactâmicos (Pang et al., 2019). Esses achados sobre resistência antimicrobiana são destacados pelos genes gyrA, gyrB, parC e parE, envolvidos na modificação de quinolona, pelos genes pmrA, pmrB, phoQ, cprS, colR e colS, envolvidos na modificação de lipopolissacarídeos, pelo gene parR, envolvido na regulação negativa de OprD e na hiperprodução de MeexEF-OprN e MexXY, pelos genes mexR, nalC e nalD, envolvidos na hiperprodução de MexAB-OprM, pelo gene oprD, envolvido na inativação de porinas de OprD, pelo gene ampC, envolvido na modificação estrutural de AmpC, e pelo gene glpT, envolvido na inativação de proteínas transportadoras de GlpT (Horcajada et al., 2019), caracterizando assim a capacidade de sobrevivência dessas bactérias nas glândulas mamárias de cabras (Santos Júnior et al., 2019). Essa ação antimicrobiana dos PAs pode ser influenciada pela presença de compostos fenólicos que se apresentam principalmente como fenóis simples, como fenol, cresóis e 1,2-benzenodiol (Oramahi et al., 2018). Os efeitos antimicrobianos desses compostos fenólicos devem-se principalmente à estrutura química desses fenóis.
Potencial Antimicrobiano in vivo de Mimosa tenuiflora
Feijó et al., (2022) quando trataram animais com M. tenuiflora demonstraram uma redução significativa no crescimento bacteriano, o que é corroborado por Pimenta et al. (2018), que relataram que o extrato pirolenhoso de M. tenuiflora possui um conjunto de ingredientes ativos com ação antimicrobiana. Esses ingredientes ativos incluem compostos fenólicos, como 4-etil-2-metoxifenol e 4-propil-2-metoxifenóis, que possuem propriedades antimicrobianas e provavelmente atuam na ativação de enzimas bacterianas e na desestabilização das membranas celulares microbianas. O extrato pirolenhoso de M. tenuiflora possui um conjunto de ingredientes ativos com ação antimicrobiana. Esses ingredientes ativos incluem compostos fenólicos, como 4-etil-2-metoxifenol e 4-propil-2-metoxifenóis, que possuem propriedades antimicrobianas e provavelmente atuam inativando enzimas bacterianas e desestabilizando membranas celulares microbianas.
Soares et al. (2021) observaram que M. tenuiflora diminuiu o número de células bacterianas quando foi utilizada como antisséptico em glândula mamária de cabras. A resposta obtida provavelmente se deve a quantidade de compostos fenólicos, como 2-metoxifenol (guaiacol) e 2,6-dimetoxifenol (siringol), presentes nesta PA, derivados da degradação da lignina, presente na madeira de M. tenuiflora (Medeiros et al., 2019). Esses compostos fenólicos, incluindo 4-etil-2-metoxifenol e 4-propil-2-metoxifenóis (Mahmud et al., 2016), possuem propriedades antimicrobianas e provavelmente atuaram na microbiota do teto, inativando enzimas bacterianas e rompendo membranas celulares.
Além desses compostos, outros compostos, como ácidos orgânicos, aldeídos, furanos e cetonas, também estão presentes nos extratos pirolenhosos produzidos pela pirólise térmica de xilanas (Suresh et al., 2019) promovendo a acidificação citoplasmática, que pode afetar a produção de energia do microrganismo (Mattos et al., 2019) e alterar o DNA bacteriano para obter efeitos antimicrobianos (Chiamenti et al., 2016). Com base nisso, fenóis, ésteres estão todos relacionados à atividade antimicrobiana (Grewal et al., 2018).
A partir dessas observações, fica evidente que M. tenuiflora apresenta alto percentual de acidez, altas concentrações de compostos carbonílicos e baixo pH apresentam melhores resultados como antimicrobianos (Mattos et al., 2019; Suresh et al., 2019). Essas características permitem a ocorrência de efeitos sinérgicos que resultam em menor resistência bacteriana em comparação àquela causada pelo uso de produtos convencionais como o iodo a 2% (Suresh et al., 2019).
Ação de Extrato Pirolenhoso nas características físico-químicas de leite caprino
Soares et al. (2021) verificaram a ação de extrato pirolenhoso nas características físico-químicas de leite caprino. Esse questionamento é importante, pois esse conhecimento sobre resíduos no leite deve ser repassado para o produtor que usa o antisséptico alternativo. A função das soluções antissépticas utilizadas após a ordenha é reduzir a contaminação e a transmissão de microrganismos causadores de mastite na pele dos tetos (Gonçalves et al., 2017). O extrato pirolenhoso de M. tenuiflora possui cetonas e aldeídos, responsáveis pela alta viscosidade (Faustino et al., 2019), o que pode afetar os sólidos não gordurosos do leite, embora não tenham sido observadas diferenças nos valores desse parâmetro ao longo do tempo ao utilizar aa M. tenuiflora como antisséptico. Esse resultado possivelmente está relacionado ao uso de antisséptico após a ordenha, onde não houve contato com o leite de cabra. Além disso, todos os outros índices como teor de gordura, pH, acidez, ponto de congelamento e condutividade elétrica se apresentaram abaixo do recomendado pela IN 37 (Brasil, 2000), permitindo determinar que o extrato a base de M. tenuiflora pode ser utilizado como antisséptico alternativo.
Considerações Finais
O uso de extrato pirolenhoso à base de M. tenuiflora apresentou-se como antibacteriano in vitro, consequentemente como bom antisséptico em animais de companhia e de produção, além de aceitável quanto à citotoxicidade. Dessa forma, apresenta-se como promissor substituto aos antissépticos convencionais e classificando-se como antisséptico inovador.
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CAPÍTULO 7
DURABILIDADE NATURAL DA MADEIRA DE Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir
NATURAL DURABILITY OF Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. WOOD
DOI: https://doi.org/10.56001/25.9786501684000.07
Submetido em: 07/08/2025
Revisado em: 05/09/2025
Publicado em: 12/09/2025
Rodolpho Stephan Santos Braga
Universidade Federal do Espírito Santo, Departamento de Ciências Florestais e da Madeira, Jerônimo Monteiro-ES
https://orcid.org/0000-0003-1858-1678
Glaucileide Ferreira
Universidade Federal do Espírito Santo, Departamento de Ciências Florestais e da Madeira, Jerônimo Monteiro-ES
https://orcid.org/0000-0001-8428-7173
Nédia Pereira Correia Mendes Correia
Universidade Federal do Espírito Santo, Departamento de Ciências Florestais e da Madeira, Jerônimo Monteiro-ES
https://orcid.org/0009-0004-9065-1065
Juarez Benigno Paes
Universidade Federal do Espírito Santo, Departamento de Ciências Florestais e da Madeira, Jerônimo Monteiro-ES
https://orcid.org/0000-0003-4776-4246
Resumo
Este trabalho revisa a literatura científica sobre a durabilidade natural da madeira de Mimosa tenuiflora, popularmente conhecida como jurema-preta, uma espécie nativa do semiárido brasileiro. A madeira dessa espécie tem sido amplamente utilizada de forma tradicional em aplicações externas, como estacas e mourões, devido à sua reconhecida resistência ao apodrecimento, mesmo sem tratamento químico. A revisão considerou 11 estudos (artigos, monografias e dissertações) publicados entre 2006 e 2024, abordando ensaios laboratoriais com fungos e cupins, bem como testes em campo aberto e natural. Os resultados demonstram que a madeira de Mimosa tenuiflora apresenta alta durabilidade natural frente a organismos xilófagos, com valores de perda de massa frequentemente inferiores a 5% nos ensaios com fungos, classificando-a como altamente resistente. Essa resistência foi associada a fatores físicos, como alta densidade e baixa porosidade, e a fatores químicos, principalmente ao elevado teor de extrativos, como taninos condensados presentes no cerne e na casca. Ensaios com cupins também demonstraram resistência moderada a alta, enquanto os testes de campo revelaram baixo grau de deterioração mesmo após três anos de exposição. Apesar dos resultados promissores, a revisão destaca lacunas de pesquisa, como a ausência de ensaios com organismos marinhos, fungos de podridão mole e cupins de madeira seca. O estudo conclui que a madeira de Mimosa tenuiflora possui alto potencial para uso em aplicações não estruturais, contribuindo para o manejo sustentável e a valorização das espécies nativas do semiárido brasileiro.
Palavras-Chave: Jurema-preta. Semiárido. Biodeterioração. Resistência natural. Extrativos.
This study reviews the scientific literature on the natural durability of Mimosa tenuiflora wood, commonly known as “jurema-preta,” a species native to the Brazilian semiarid region. The wood of this species has been traditionally used in outdoor applications, such as stakes and fence posts, due to its recognized resistance to decay even without chemical treatment. The review considered 11 studies (including articles, monographs, and dissertations) published between 2006 and 2024, covering laboratory tests with fungi and termites, as well as open-field and natural exposure tests. The results show that Mimosa tenuiflora wood exhibits high natural durability against xylophagous organisms, with mass loss values frequently below 5% in fungal tests, classifying it as highly resistant. This resistance has been associated with physical factors, such as high density and low porosity, and chemical factors, mainly the high content of extractives like condensed tannins found in the heartwood and bark. Termite tests also indicated moderate to high resistance, while field trials revealed a low degree of deterioration even after three years of exposure. Despite these promising results, the review highlights research gaps, such as the lack of tests with marine borers, soft-rot fungi, and drywood termites. The study concludes that Mimosa tenuiflora wood has high potential for use in non-structural applications, contributing to the sustainable management and valorization of native species from the Brazilian semiarid region.
Palavras-Chave: Black jurema. Semiarid. Biodeterioration. Natural resistance. Extractives.
Introdução
A durabilidade natural da madeira é uma propriedade intrínseca que determina sua resistência ao ataque de organismos xilófagos, como fungos, insetos e bactérias, sem a necessidade de tratamento preservativo. Essa característica está diretamente relacionada à longevidade e ao desempenho da madeira em diferentes condições de uso, especialmente em aplicações externas ou em contato com o solo, onde o risco de deterioração biológica é elevado (Stallbaun et al., 2017; Vivian et al., 2020). A durabilidade natural é influenciada por uma combinação de fatores anatômicos, físicos e, sobretudo, químicos, destacando-se a presença e o tipo de extrativos naturais presentes nos tecidos lenhosos, que podem influenciar a durabilidade da madeira em alta, média ou baixa resistência (De Ligne et al., 2021; Martín e López, 2023).
Entre as propriedades físicas, destaca-se a densidade, a qual influencia diretamente a porosidade e a permeabilidade da madeira, dificultando ou facilitando o avanço de agentes deterioradores Gallio et al., 2018). Já os aspectos químicos, como o teor de extrativos, lignina e compostos fenólicos, são fundamentais na proteção natural contra o ataque biológico. Espécies com maior quantidade de compostos secundários como taninos, flavonoides e substâncias inseticidas ou fungicidas, tendem a apresentar maior durabilidade natural (Valette et al., 2017).
A Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. (Jurema-preta) é uma espécie nativa do semiárido brasileiro, pertencente à família Fabaceae e com ampla distribuição no bioma Caatinga (Marques et al., 2021; Santos et al., 2022). Trata-se de uma planta pioneira, de crescimento rápido, adaptada a solos pobres e condições climáticas adversas (Bendito et al., 2018; Ferreira et al., 2020). Sua madeira é tradicionalmente utilizada na produção de estacas, carvão vegetal e pequenos artefatos, sendo reconhecida regionalmente por sua elevada resistência ao apodrecimento, mesmo quando em contato com o solo (Carlos et al., 2021). Essa percepção empírica tem despertado interesse científico em compreender os mecanismos que conferem tal resistência, especialmente em um contexto de valorização de espécies nativas e uso sustentável dos recursos florestais.
No cenário atual, o manejo sustentável e o uso racional das espécies florestais nativas são temas centrais nas discussões acerca de conservação ambiental e desenvolvimento econômico regional. A exploração consciente da madeira de espécies como a Mimosa tenuiflora pode contribuir para a geração de renda em comunidades locais, ao mesmo tempo em que promove a conservação dos ecossistemas, desde que pautada em critérios técnicos e ecológicos. Avaliar e compreender a durabilidade natural de espécies nativas é essencial para subsidiar políticas públicas, práticas de manejo florestal sustentável e desenvolvimento de produtos de maior valor agregado.
Diante disso, o presente artigo tem como objetivo revisar o conhecimento disponível na literatura científica acerca da durabilidade natural da madeira de Mimosa tenuiflora, abordando os fatores físicos e químicos que influenciam essa propriedade, bem como as metodologias comumente utilizadas em sua avaliação. Espera-se que esta revisão contribua para a ampliação do conhecimento sobre o potencial da Mimosa tenuiflora como recurso florestal e para a valorização de espécies nativas adaptadas às condições edafoclimáticas do semiárido brasileiro.
Metodologia
A presente revisão de literatura foi conduzida com o objetivo de reunir e sintetizar o conhecimento científico disponível sobre a durabilidade natural da madeira da espécie Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir. destacando como as propriedades físicas e químicas possibilitam que madeiras possam apresentar maior ou menor durabilidade natural, quando em serviço.
A busca por referências foi realizada em diversas bases de dados acadêmicos e científicos reconhecidos, incluindo Google Acadêmico, SciELO, Scopus, Web of Science e Elsevier, a fim de garantir uma ampla cobertura e diversidade de fontes. Não foi considerado um período determinado, com o intuito de reunir todas as fontes publicadas.
Foram incluídos na revisão, artigos científicos, monografias, dissertações e teses que abordassem diretamente aspectos relacionados à durabilidade natural da madeira de Mimosa tenuiflora ou que contribuíssem com informações sobre propriedades físicas e químicas relacionadas à resistência natural. Não houve restrição quanto ao idioma das publicações, sendo considerados trabalhos em português, inglês e espanhol, desde que o conteúdo estivesse acessível e contribuísse de forma relevante para os objetivos da revisão. As informações coletadas foram organizadas de forma clara e acessível, facilitando o entendimento do leitor.
Resultados e Discussão
- Resultados da pesquisa
Foram identificados 11 trabalhos acerca da durabilidade natural de Mimosa tenuiflora, sendo dentre eles, 8 artigos publicados entre 2006 e 2024, 2 monografias publicadas em 2018 e 2020 e, 2 dissertações publicadas em 2022 e 2024 (Tabela 1).
Tabela 1: Trabalhos identificados de durabilidade natural da madeira de Mimosa tenuiflora em busca literária
ARTIGOS | ||||||
Nº | Tipo de ensaio | Tipo de madeira | Dimensão da amostra | Tempo de ensaio | Observações | Referência |
1 | Ensaio com fungos | Serrada (Cerne e Alburno) | 2,54 x 2,00 x 1,00 cm | 14 semanas | Postia placenta Polypous fumosus | (Melo e Paes, 2006) |
2
| Ensaio com fungos | Serrada (Cerne e Alburno) | 2,54 x 2,00 x 1,00 cm | 14 semanas | Postia placenta Polypous fumosus | (Paes, Melo, Lima, 2007) |
Ensaio com cupins | Serrada (Cerne e Alburno) | 2,54 x 2,00 x 0,64 cm | 28 dias | Nasutitermes corniger (alimentação forçada) | ||
3
| Ensaio com cupins | Serrada (Cerne e Alburno) | 5,00 x 2,00 x 0,64 cm | 45 dias | Nasutitermes corniger (preferência alimentar) | (Paes et al., 2007) |
4 | Ensaio em campo | Serrada (Cerne) | 2,0 x 2,0 x 30,0 cm | 270 dias | – | (Carlos, Diadato, Castro, 2021) |
5 | Ensaio com fungos | Serrada (Cerne) | 2,50 x 2,50 x 1,00 cm | 12 semanas | Ganoderma sp. | (Nogueira, Castro, Araújo, 2021) |
6 | Ensaio em campo | Peça roliça (Cerne e alburno) | 50,0 cm (comprimento) x 8 a 12 cm (diâmetro) | 360 dias | – | (Batista et al., 2022) |
7 | Ensaio em campo | Serrada (Cerne) | 5,0 x 2,5 x 50,0 cm | 3 anos | – | (Braga et al., 2024) |
MONOGRAFIAS E DISSERTAÇÕES | ||||||
Nº | Tipo de ensaio | Tipo de madeira | Dimensão da amostra | Tempo de ensaio | Observações | Referência |
8 | Ensaio com fungos | Serrada (Cerne) | 2,50 x 2,50 x 1,00 cm | 12 semanas | Daldinia sp. | (Santos, 2018) |
9 | Ensaio com fungos | Serrada (Cerne) | 2,50 x 2,50 x 1,00 cm | 12 semanas | Ganoderma sp. | (Nogueira, 2020) |
10 | Ensaio em campo | Peça roliça (Cerne e alburno) | 50,0 cm (comprimento) x 8 a 12 cm (diâmetro) | 365 dias | – | (Batista, 2020) |
11 | Ensaio em campo | Serrada (Cerne) | 5,0 x 2,5 x 50,0 cm | 3 anos | – | (Braga, 2024) |
Ensaio em campo | Peça roliça (Cerne e alburno) | 100,0 cm (comprimento) x 10 a 15 cm (diâmetro) | 3 anos | – | ||
- Ensaios laboratoriais com fungos xilófagos
Os estudos laboratoriais realizados por Melo e Paes (2006), Paes, Melo e Lima (2007), Santos (2018) e Nogueira, Castro e Araújo (2021) empregaram dimensões padronizadas (2,5 × 2,5 × 1,0 cm) e tempos de exposição variando entre 12 e 14 semanas (Tabela 1 ), o que é padronizado para ensaios de durabilidade natural conforme a norma ASTM D-2017 (2005). Nesses estudos, foi indicado que a madeira de Mimosa tenuiflora apresenta alta resistência à degradação por fungos de podridão, geralmente classificados como de podridão parda ou branca, levando-se em consideração as classes de resistência da madeira a fungos xilófagos, apresentados na Tabela 2.
Tabela 2: Classes de resistência da madeira a fungos xilófagos
Perda de massa (%) | Massa residual (%) | Classe de resistência |
0 – 10 | 90 – 100 | Altamente resistente (AR) |
11 – 24 | 76 – 89 | Resistente (R) |
25 – 44 | 56 – 75 | Moderadamente resistente (MR) |
≥ 45 | ≤ 55 | Não resistente (NR) |
Fonte: ASTM D 2017 (2005).
De acordo com Melo e Paes (2006), a madeira de Mimosa tenuiflora apresentou-se como altamente resistente, com valores médios de perda de massa variando entre 0,52% a 1,46% em função da posição da madeira. Os autores indicaram a posição mediana-interna como a mais resistente, no qual abrange a área de cerne, concluindo que sua madeira seja de alta resistência, e que este parâmetro está diretamente relacionado com a sua densidade, no qual variou de 0,96 a 1,02 (g/cm³).
O mesmo ocorre com os resultados obtidos por Paes, Melo e Lima (2007), no qual também indicaram a madeira de Mimosa tenuiflora como altamente resistente, destacando-se que a resistência natural varia na direção medula-casca, sendo as madeiras de cerne as mais resistentes, do que as provenientes de alburno. A média para perda de massa provocada pelo fungo Postia placenta (podridão parda) nas diferentes posições da madeira foi de 1,00%, enquanto para o fungo Polyporus fumosus (podridão branca) foi de 0,68%, indicando a alta resistência da madeira a esses fungos. Diferente do observado por Melo e Paes (2006), foi realizada uma análise de correlação entre densidade e perda de massa, no qual indicou que a resistência natural de Mimosa tenuiflora não esteve associada à densidade da madeira, já que não houve correlação significativa.
Foi observado por Santos (2018), que a madeira de Mimosa tenuiflora apresentou perda de massa inferior a 1% quanto ao ataque do fungo Daldinia sp. causador de podridão parda. Além disso, a autora realizou a análise de solubilidade em NaOH 1% antes e depois do apodrecimento, onde não mostrou diferença significativa entre as médias antes e após o ataque do fungo, indicando que nesse caso, o fungo não teve a capacidade de degradar as cadeias de celulose de forma significativa a ponto de afetar a solubilidade em NaOH 1% da madeira. Também foi observado a massa específica média de 0,85 (g/cm³) e teor de extrativos totais de 12,7%, no qual corrobora com a sua classificação como uma madeira altamente resistente em função de suas características físicas e químicas.
Nogueira (2020) e Nogueira, Castro e Araújo (2021), observaram valores de perda de massa de 1,16%, 1,63% e 4,78%, respectivamente nos sentidos base, meio e topo, classificando novamente a madeira de Mimosa tenuiflora como altamente resistente ao ataque do fungo Ganoderma sp. causador de podridão branca. Nesses estudos, a alta durabilidade foi relacionada à presença de extrativos fenólicos, no qual o maior valor foi de 11,33% de teor de extrativos solúveis em acetona no cerne da região basal do tronco da árvore e, de 13,94% de extrativos totais na altura de 50% da árvore, reforçando o papel da composição química da madeira na resistência biológica.
- Ensaios laboratoriais com cupins
Os estudos conduzidos por Paes, Melo e Lima (2007) testaram a resistência em ensaio de preferência alimentar contra Nasutitermes corniger, uma espécie de cupim arborícola, que embora tenha utilizado dimensões reduzidas das amostras para este ensaio (2,54 × 2,00 × 0,64 cm), observou-se que a perda de massa variou entre 3,21% a 6,38% em função da posição sentido medula-casca, logo, a madeira foi pouco consumida pelos cupins, evidenciando resistência moderada a alta.
Utilizando a mesma espécie de cupim (Nasutitermes corniger), Paes et al. (2007) também avaliaram a resistência da madeira de Mimosa tenuiflora, dessa vez em ensaio de alimentação forçada. Os resultados obtidos para perda de massa estão em concordância ao estudo anterior, com valores médios variando entre 2,54% a 3,77% em função da posição sentido medula-casca. A nota de desgaste médio foi de 9,69 (ataque superficial), com 100% de mortalidade dos cupins ao tempo médio de 11,5 dias.
- Ensaios em campo
Batista (2020) e Batista et al. (2022) testaram a madeira roliça de Mimosa tenuiflora em campo aberto, com ataque natural por organismos do solo. Ambos observaram baixo grau de deterioração, mesmo após um ano de ensaio, reforçando a percepção tradicional do uso da Mimosa tenuiflora para estacas, cercas e mourões. O valor médio de perda de massa observado por Batista (2020) foi de 10,89% com nota 55,00, classificando-a com ataque moderado de acordo com Lepage (1970). Batista et al. (2022) exemplificou a aparência final das amostras com vista do topo e lateral, após exposição ao teste de campo (Figura 1).
Figura 1: (a) Aspecto final das amostras das diferentes madeiras (da esquerda para a direita: Ap, Co, Mc, Mo e Mt) do topo e (b) Vista lateral, após exposição ao teste de campo.
Legenda: (Aspidosperma pyrifolium (Ap); Cordia oncocalyx (Co); Mimosa caesalpiniifolia (Mc); Mimosa ophthalmocentra (Mo); e Mimosa tenuiflora (Mt)). Fonte: Batista et al. (2022)
Carlos et al. (2021) testaram a madeira em campo aberto (sem vegetação ao redor) e em campo natural (área de fragmento de Caatinga). Foi observado baixo grau de deterioração, mesmo após quase 9 meses de ensaio. Os valores de perda de massa e índice de deterioração em campo aberto foram de 2,08% e 95,74%, já para campo natural foi de 3,12% e 97,19%, respectivamente, classificando a espécie em ambos os ambientes como sadio-nenhum ataque, ou mesmo um ataque leve, de acordo com Lepage (1986).
O trabalho de Braga et al. (2024), com ensaio de longa duração (3 anos), demonstrou excelente desempenho da madeira serrada, com mínimos sinais de deterioração estrutural no primeiro ano de avaliação, com índice de deterioração de 91,11% indicando durabilidade comparável aos resultados obtidos por Carlos et al. (2021). Ao final dos três anos, o índice de deterioração foi de 66,67%, com perda de massa média de 22,10%, classificando a madeira com o ataque evidente, mas moderado, de fungos ou cupins, no qual é possível observar esse ataque na Figura 2. Neste estudo, a fração de taninos condensados no cerne de Mimosa tenuiflora foi determinada em 4,00%, resultado que corrobora a relevância da composição química na conferência da durabilidade natural da madeira (Valette et al., 2017).
Figura 2: Níveis de desgaste observados na madeira de Mimosa tenuiflora ao final do terceiro ano de avaliação do campo de apodrecimento.
Fonte: Figura adaptada de Braga et al. (2024).
A dissertação de Braga (2024) além de avaliar a madeira serrada em metodologia padrão estabelecida pela IUFRO (International Union of Forest Research Organization) e descrita por Lepage (1970), também avaliou peças roliças, ampliando a aplicabilidade dos resultados para usos mais rústicos, como estacas e mourões, mostrando que a presença do alburno não comprometeu significativamente a resistência, pelo contrário, ao terceiro ano de avaliação as peças roliças tiveram índice de deterioração de 81,43%, enquanto as peças serradas teve índice de 66,67%, o que classificou essas amostras em ataque leve ou superficial de fungos ou térmitas.
É possível observar certa divergência ao comparar o índice obtido por Batista (2020) com um ano de avaliação, no qual foi de 55,0 e o índice de um ano obtido por Braga (2024), no qual foi de 97,14%. Tal resultado, pode estar associado à dimensão das amostras analisadas, além de requerer a consideração da permanência da casca no tronco, na qual não foi retirada no estudo conduzido por Braga (2024), possibilitando uma maior barreira física e química contra a ação de agentes xilófagos (Figura 3), tendo em vista a elevada concentração de 23,4% de taninos condensados na sua casca (Silva et al., 2022).
Figura 3: Fotografia realizada de peça roliça de Mimosa tenuiflora no segundo ano de avaliação do campo de apodrecimento.
Fonte: Figura adaptada de Braga (2024).
- Tendências gerais observadas
A madeira de Mimosa tenuiflora apresenta alta resistência natural, tanto em condições controladas (fungos e térmitas) quanto em condições reais de uso (campo aberto ou campo natural). Essa resistência parece estar associada a alta densidade da madeira (Melo e Paes, 2006); baixa porosidade (Batista, 2020) e teor elevado de extrativos, especialmente taninos (Marques et al., 2021).
- Lacunas e oportunidades
Ainda que os estudos sejam consistentes, são poucos os trabalhos que realizam análises químicas aprofundadas para correlacionar os extrativos específicos com a durabilidade natural da madeira de Mimosa tenuiflora. Até o momento, não foram realizados ensaios com organismos marinhos ou fungos de podridão mole, sendo assim, uma possível extensão futura de pesquisa.
Testar a durabilidade em ensaios de campo com uma maior diversidade de ambientes, como em sistemas agroflorestais ou urbanos, onde as condições ambientais variam amplamente, também é uma possibilidade. Testar a resistência da espécie em ensaios laboratoriais com cupins de madeira seca é uma oportunidade de aumentar a possibilidade de emprego da madeira de Mimosa tenuiflora em móveis, pequenas estruturas e pequenos objetos, assim como foi relatado por Rocha et al. (2015) e Nogueira (2020).
Considerações Finais
A revisão da literatura demonstra que a madeira de Mimosa tenuiflora apresenta excelente durabilidade natural frente a diversos agentes xilófagos, com destaque para sua resistência a fungos de podridão branca e parda, bem como a cupins do gênero Nasutitermes. Os ensaios de campo confirmam a viabilidade do uso da espécie em aplicações de risco biológico, como estacas, cercas e mourões. Assim, a madeira de Mimosa tenuiflora revela-se uma alternativa promissora para usos não estruturais em regiões semiáridas, com potencial para substituição de espécies comerciais, contribuindo para o manejo sustentável e valorização das espécies nativas do semiárido brasileiro.
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